26/11/2010

O Pequeno Veleiro Verde

Sua primeira lembrança era um conjunto confuso de sensações muito maiores que ele mesmo, ao qual mais tarde lhe ensinaram a dar o nome de mar. Desconfiou da palavra desde que a ouvira pela primeira vez. Achava absurda a tentativa dos homens de tentar colocar tamanha imensidão numa única palavra. Não, sua primeira lembrança não era o mar, mas o cheiro da água salgada, o balanço do barco, a sensação do vento batendo no rosto. O azul, o verde e o cinza dos dias de tempestade. O equilíbrio errático entre o calor e o frio, que em sua própria existência prescindiam de qualquer adjetivo. Eram a liberdade, o vazio e o horizonte. As possibilidades infinitas e a eterna tarefa de encontrá-las, abraçá-las, e por fim deixá-las, para outros que inevitavelmente viriam, e pelas próximas que o aguardavam além da maré cheia.

Talvez seu pai tivesse lhe ensinado a velejar. Talvez sua mãe lhe houvesse ensinado a canção que cantava todas as manhãs. Mas quando saía pra imensidão com seu pequeno veleiro verde, o que ficava em terra tornava-se pouco importante. Com uns tantos anos, já nem se lembrava mais como pensar nos ângulos, nos nomes dos nós, nos movimentos das marés ou na direção do vento. Tudo, quando em alto mar, tornava-se uma coisa só. Aprendeu rapidamente que lá, sozinho, o mais importante, e talvez a única coisa, a se saber era como se deixar levar.

Acordava todas as manhãs com uma instigante sensação de novidade. Ânimos renovados, mal se preocupava em comer antes de sair apressado para a praia. Em pouco tempo levantava vela e partia pro mar, sempre cantando a mesma canção. A voz desafinada de criança se misturava às respostas das gaivotas e ao ritmo inconstante das ondas, transformando aos poucos aquela canção numa outra, que logo se tornava uma terceira, de modo que ao final de cada dia a música que chegava à praia era totalmente nova. O menino cantava enquanto tirava o barco da água e descia a vela, e sua única platéia era um velho pescador que, toda noite, sentado ao lado de uma fogueira, acenava de longe. O menino sorria, acenava de volta, e, feliz, voltava pra casa assoviando a nova melodia, que seria esquecida durante o sono, tomando novamente sua forma original.

Dia após dia o pequeno veleiro verde ia expandindo o universo do menino. A cada nova praia, a cada ilha não mapeada, a cada mudança de vento. Quanto mais ousava, maiores se tornavam os desafios; quanto mais descobria, mais havia a ser desvendado. Quando à noite voltava pra casa, se deitava na cama, e na escuridão podia enfim refletir sobre as aventuras do dia, as cores, os cheiros, a música e os ventos se misturavam às imagens ainda frescas na retina, numa dança metafísica que acabava por conduzí-lo a um sono profundo, no qual o ritmo era mantido, mas as conexões ganhavam a liberdade dos sonhos, e o mundo dentro de sua cabeça se transformava incessantemente.

Sem tomar nota dos anos que passavam, o menino permanecia menino. O tempo lhe parecia eterno, estático: o mundo é que se desdobrava infinitamente na frente de seus olhos curiosos, que absorviam tudo, como se encontrassem na contemplação dos movimentos do universo o êxtase absoluto. Se admirava com todas as coisas, da fila de formigas aos aglomerados de estrelas, dos coqueiros que se inclinavam com o vento às formas engraçadas de caminhar de algumas pessoas. E se apaixonava todo dia pelos tantos personagens que encontrava pelo caminho. Queria conhecê-los todos e amá-los todos a todo tempo. Queria entendê-los e ajudá-los, descobrir o que lhes era verdadeiramente importante e aprender com eles sempre que possível. Levava-os todos consigo, e à noite todos juntavam-se às cores e à musica de seus sonhos. Todos lhe sorriam e dançavam noite adentro, em volta de uma enorme fogueira caleidoscópica que erguia-se flamejante contra o céu estrelado.

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Certo dia, ao acordar e olhar pela janela, o menino se assustou com o tempo fechado. Uma estranha sensação de perda se alojou em seu peito. Já havia enfrentado dias piores, e não sabia dizer o que lhe incomodava nas nuvens cinzas que cobriam completamente o azul do céu. O mar parecia silencioso, e não se ouvia as gaivotas. Não havia ninguém na praia. A música que cantava ia ficando cada vez mais lenta, e assumia um tom melancólico, com algo de profético, e algo de saudade.

Uma ilha desconhecida surpreendeu o menino. Conhecia bem aquelas águas, e poderia jurar que não havia ilha alguma no dia anterior.

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Nota: Esse conto está guardado há um tempo, e me parecia inacabado. Lendo hoje acho que está bem na medida. No fundo acho que ele se encaixa em algum momento da minha história em quadrinhos. Vai com a tag das coisas inacaba[das](veis?). Uma curiosidade sobre ele é que eu comecei a escrevê-lo depois de ler esse e esse textos, que se juntam numa cadeia de histórias que terminam em alguém começando uma história, que por sua vez vai ser escrita por outra pessoa. Achei incrível essa idéia de fazer uma história eterna e com eternos autores, e quis continuar. Mas depois descobri que na verdade isso não era o objetivo inicial, e aquele padrão foi uma coincidência ou uma intertextualidade estranha. O segundo texto de fato continua numa história própria e não tem intenções tão megalomaníacas quanto as que enxerguei nele.

Me decepcionei e por um tempo abandonei o conto, mas hoje vi que ele na verdade fala muito mais sobre mim do que se encaixa naquelas histórias. E essa desvinculação também me poupa o trabalho de ter que continuá-lo até encaixar numa próxima história.

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