15/08/2013

Science Poet 2 - Da Fábula Social

Epígrafe:



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[15 de setembro de 2012 - sábado]

A guerra ocidental, como todas as outras, vem sempre acompanhada de uma fábula. Um sentimento nacional, um conto de fadas perene, a respeito do suposto tempo de guerra. Num certo momento, a fábula confunde-se com realidade, a violência física da guerra oferece a ilustração do conto. Mas sem exceção a fábula da guerra tem uma forma. A reação ao inimigo concreto traz uma carga de interpretação, está fundada num complexo semiótico social que constrói com as nuances políticas de seu próprio tempo.

Hitler, os campos de concentração, a crueldade, a aberração humana, o diabo em pessoa; suas tropas, cavaleiros do apocalípse de um juízo final prematuro.

Do outro lado, o mito ariano, a força de uma raça e o sonho imperialista. Essa segunda nos é díficil até de imaginar, enquanto a outra está posta em banquete no menu de hollywood. Mesmo quando tentamos ver “sob os olhos” do lado negro, o vemos como transposição de um olhar que se cria aqui, do outro lado da história.

Das invasões bárbaras, das longas ocupações muçulmanas na Europa medieval, de Che, de Lenin, de Cuba. Mesmo quando ouvimos falar, mesmo nos mitos que nós mesmos ousamos criar, conseguimos apenas enxergar sombras de sentimentos humanos possíveis.

Enquanto do triunfo de roma, das cruzadas, ou da façanha militar americana durante o século XX parecemos estar impregnados.

A história dos vencedores transpõe a produção acadêmica; sua importância política se dá na fábula social.

Fábula que constrói-se cotidianamente, através desse organismo sociedade;

tão maior é o seu nível de detalhe quanto mais instrumentos narrativos o homem possuir;

tão maior é a velocidade de sua propagação e a profundidade de sua inserção psíquica quanto mais elaboradas as técnicas de difusão de idéias.

A mais avançada forma artística torna-se instrumento narrativo, capital genérico, ampliando as possibilidades de detalhe da fábula social, conferindo-lhe maior abrangência e capacidade crítica.

Mas as mesmas profundezas servem como mapa no processo de pasteurização do potencial crítico da análise.  


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Certa prática teatral do século XX, acompanhando o desenvolvimento da teoria política alcançada no século anterior, caminhou no intuito de atender uma necessidade clara.

Comunicar nuances da existência política da sociedade humana num mundo onde o acesso às idéias se intensificava como nunca antes. Inserir na construção orgânica da fábula social uma análise crítica da sociedade

A arte, a  cultura, são instrumentos narrativos de um povo inteiro; e não digo de povos passados, de histórias lidas por seres estranhos de tempos totalmente distintos. A narrativa presente está escrita na cabeça de cada ser humano de um momento; é o código sobre o qual escrevemos nossas estruturas de pensamento.

Torna-se impossível propor com eficiência, qualquer código que distoe, frente ao aparato privado de difusão de informação.

E note-se, o problema não está na palavra aparato, mas na palavra privado.

O mito da internet como ambiente livre de produção e difusão de idéias nos aponta para um erro grave de perspectiva. A técnica de difusão da informação não envolve apenas o meio no qual ela se dá.

Eles tinham um rio, nós achamos o mar. Mas os barcos ficaram todos por lá.

Lutamos contra as ondas, rimos-nos dos nossos amplos espaços.

As estratégias de massificação logo vieram, porque já vieram, e nenhuma estrutura temos que possa combater o poder neutralizador de algo como o facebook.



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O parasita assimilador da cultura burguesa é criação das vanguardas artísticas mais radicais.

A antropofagia é talvez o conceito-mãe de um estrutura nascente, primeiro a nomeá-la e reconhecê-la em todo o seu potencial.

Mas como pioneira, pouco imaginava o que seria das terras que descobria, quando assimiladas e infinitamente replicadas pelo aparato burguês de comunicação.

Resta reinvindicá-la(o).

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Diário de Bordo de um Ano 9
---Pícaro Dias, São Paulo

08/08/2013

Science Poet - 1 - Addendums

Tchekov, a passagem da teatralidade exterior para uma exploração interior das contradições contidas na ação e emoção humana. A passagem de uma critica politica maniqueista, para a exploração das micro-tensoes contidas no seio da interação social capitalista. O efeito da infraestrutura economica sobre a psique das relações humanas, encarado a partir dessa ultima. Surge aqui a possibilidade de construir uma critica existencial mais profunda sobre a vida dentro de um sistema competitivo e opressor.

A exploração observada em tchekov situa-se numa linha comum às vanguardas, ao modernismo, e em ultima instancia a Piscator, Brecht e Boal.

O paralelo academico dessa linha seria o caminho psico-socio-linguistico de figuras como Freud, Lacan, Deleuse, Foucault, Guy Debord, Adorno, e talvez nos pontos mais próximos da reta econômico-política, Walter Benjamin, Habermas, Friederich Jameson.

A reta base é essa última, que parte de Marx, e tenta traçar nas manifestações mais profundamente estéticas, psicológicas e sociais, seus correspondentes fundamentos materiais.

A linha que aqui se detecta em Tchekov, parece ironicamente convergir, após devaneios dos mais variados, a um diagnóstico Marxista. As mais profundas das manifestações estéticas só conseguem mostrar dor, desespero e solidão, acusando repetidamente uma entidade social que oprime, castiga, mata.

As bases do entendimento concreto dessa entidade está em Marx. Sua superação está no desenvolvimento da luta de classes. Os detalhes do processo são um sistema complexo de relações, mas a imagem geral quando se volta à perspectiva panorâmica reforça a anaálise macro cultural de Marx para a humanidade. Os intrínsecos caminhos microscópicos apenas reforçam os contornos de um modelo base já bem estabelecido. Mas alterar esse conjunto maior exige uma ação que provém sempre de nós, representantes mais superestruturais de toda a figura. Sendo assim, é fundamental para o planejamento de nossa ação o entendimento dessa malha relacional, desse complexo sócio-linguistico-psiquico-cultural. E encontrar a forma de torná-los materialmente análisáveis é um processo essencial para a consolidação de uma ciência humana que possa efetivamente chamar-se como tal.


A matemática dos terrenos imapeáveis. Ouso imaginar que ela já está pronta, nalgum canto dos arcabouços acadêmicos dessa incrível máquina lógica de pensamento.


Diário de Bordo de um Ano 9
---Pícaro Dias, São Paulo

06/08/2013

Science Poet - 1 - Apontamentos

Epígrafe:



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[27 de junho de 2012 - quarta]


Arte como produto da aplicação de mecanismos materiais/mentais/sociais/simbólicos,  apreendidos na lida com o mundo, sobre regiões imateriais da existência humana


Psique/Palavra, Estrutura Social/Cultura


Arte burguesa - apogeu da arte do ócio - desdobramento sobre si, loop fractal infinito  de uma auto-análise desligada da atividade no mundo material. O questionamento sobre o propósito da existência, a preocupação em nomear e definir o ser, definir o eu, como sintomas de uma arte do ócio, que, diferente de uma arte do trabalho, cria o desentendimento sobre sua própria razão de ser.


Hamlet - Hegel


Ser humano em crise, em conflito com uma estrutura externa que o agride


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Arte do trabalho: da prática. Estrutura de pensamento resultante: realização estética passageira, impermanência


X


Arte do ócio: fruto de sociedade de classes. Estrutura de pensamento resultante: afastada da prática, devaneio do poeta solitário, exacerbação de um ser humano individual em crise

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A impossibilidade simbolica da arte do trabalho florescer num meio dominado pelo imperialismo ideológico da arte burguesa


O Erro de Boal - propor a arte do trabalho num meio burguês


Revolução como proposta estética para uma guerra contra o sistema simbólico que oprime um modo de pensamento, e contra as bases materiais que o sustentam.


Formas de existir artisticamente num meio burguês: dialogando de alguma forma com os horizontes de espectativa do presente, sem tentar dar vida a uma arte materialmente incapaz de existir fora de uma sociedade emancipada do parasita burguês atual 

Como: Antropofagia.


(Artigo-Parentese sobre a probabilidade do esgotamento da defendida arte do trabalho, e sua possível caracterização como parasita numa crise futura. A dialética de nosso tempo, arte do ócio x arte do trabalho. O curso cíclico e harmônico da história. A besteira de evitar a posição de esquerda no clímax de polaridades estruturalmente evidentes, apenas aparentemente adormecidas num momento de respiro geracional. A falácia contida na pregação de um recuo a uma despolarização ilusória e impossível)


A potência da arte do trabalho não tem meios nem força simbólica para existir no campo de forças de uma cultura burguesa hegemônica, e até mesmo suas ferramentas e possíveis avanços conceituais, não poderão sequer ser identificados em sua real potência fora de uma perspectiva de sociedade emancipada do atual impasse.


A arte burguesa consolidou-se herdando grande parte de suas ferramentas de linguagem ainda de uma cultura aristocrática anterior, da qual tirou a maioria de suas ferramentas desenvolvidas ad infinitum na chave do tempo ocioso. E nesse ponto precisamente, não ousou quebrar revolucionariamente a lógica mais profunda da arte e do pensamento como um todo: a origem de seus mecanismos simbólicos no ócio de uma classe dominante parasitária.


A grande piada é que a arte burguesa já chegou a seu fim. Tem seus inegáveis méritos, seus avanços historicamente revolucionários, e seus conceitos como apogeu da técnica e do pensamento humanos. Mas morreu há décadas como força criadora capaz de fazer o homem avançar. Sobre-vive hoje apoiada numa inércia histórica típica, prolongada pelo efeito social zumbificante e imperial dos monópolios culturais financeirizados - as televisões, etc...


O efeito imediato mais característico da decadência sobre a esfera ideológica, é o aumento exponencial nas “revoluções tecnológicas” anuais coexistindo com uma estagnação social, política, e cultural aparentemente incoerente.


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Marx e o apogeu de uma matemática específica aplicada ao caráter material das humanidades.


Me interessa agora uma matemática capaz de superar a sinuca de bico encontrada no dilema pós-moderno. A matemática da metáfora, da memória.


Uma matemática capaz de materializar terrenos ainda tidos como efêmeros e líquidos, vislumbrados e sugeridos pela explosão surrealista, mas ainda incapazes de concretizarem-se em ciência, para além da esquizofrenia circular do pós-moderno, que continua a encontrar os infinitos caminhos possíveis de chegar-se a um mesmo lugar retórico, e relativizar eternamente a materialidade e a verdade, num mar subjetivo de interpretações paralelas.


Os fractais são a explosão surrealista na matemática.


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Diário de Bordo de um Ano 9
---Pícaro Dias, São Paulo

07/01/2013

Vida Além da Linha


E o que você quer de mim?




Acho que quero saber sobre o seu surgimento.

A primeira vez que me apareceu.



Sabes que é um instante doloroso


Mas ele pauta toda a essência do teu ser.

É o sentimento original de toda a tua existência em mim.


Criaste deuses pequenos,

se ao diminuto poeta somos já assim tão claros


São muito maiores que meu entendimento,

Tudo que faço é tentar decifrar teus contornos

Mas vocês existem além de toda minha criação

Existem como forças do mundo e do homem

às quais tento adequar meus universos pessoais.

Foram talvez os primeiros,

de um padrão criativo que volveria sobre si próprio

Tomando a vocês como modelos inevitáveis

Tornado-lhes deuses de fato

Com universos inteiros moldados a tua imagem e semelhança.


E essa imagem que crias de mim?

Com a qual tenta acessar o momento de minha dor,

Como fosse eu ferramenta de tua busca filosófica.


Se puder perdoar-me,

não posso evitar.


Buscas saber sobre a dor de quando deixei a floresta.

A primeira aparição da Deusa.




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Dói,

dói muito.

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E como foi quando você deixou tua floresta?


Não acho que tenha deixado de todo a floresta.

Com o tempo

ela vai ficando pequena sabe?

Até o momento em que todas as árvores já são conhecidas, todos os jogos já foram jogados.

E como que por acaso, às vezes se cruza uma linha invisível

E a cada fronteira cruzada, a floresta parece recomeçar

O vazio assusta...

num primeiro momento.

Mas a escuridão aos poucos passa

e se mantiver os olhos atentos, logo se pode notar os contornos impossíveis de árvores gigantescas,

muito maiores e mais complexas do que qualquer coisa que se pudesse conceber até então.


E os que ficam pra trás?


Pra trás?


Os que nunca saem daquela outra floresta?




Queria mostrar-lhes tanta cosa


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30/11/2012

Pode um peixe?


Pode alguém chegar a si
sem antes ver-se adoecer
ou se perder pelo caminho?

Morrer de amor por meses, anos,
ou odiar
ao menos uma vez...

Pode um peixe de tamanho
viver assim pequenininho
e ter de ver crescer em si
tudo o que de sempre soube ser?

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Algo faz o mundo,
e algo vem de nós,
pra tirar da vida um certo dom
de encher de brilho aqueles olhos de criança
ou de já velhos, frente ao leito
irmos dormir sem perceber…

Aos meus,

alguns melhores amigos, protagonistas de tantos enredos,

incontáveis coadjuvantes chave do passado,

família, metáfora primeira da vida, 

ou ainda das tantas mulheres,
que nunca ousei realmente amar…

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Meu quarto [de memórias] anda uma zona.

E o peso das coisas todas - papéis, passados, tudo - segue rondando minha vida numa iminência que já não me incomoda.

Todo o antes, pouco vivido, mas observado com uma atenção inexplicável,

como que recombina-se freneticamente diante de meus passos

formando frente ao olhar um mundo que não poderia sequer existir,

não fosse a presença de cada um de vocês em minha vasta galeria de lembranças,

e as incessantes combinações cognitivas que fazem dela meu mundo.

Nunca morreram, nenhum de vocês.

Fizeram-me no que sou, 

daquilo que escolhi ser ao lado de cada um de vocês.

E seguem em mim como frutos únicos

de encontros inéditos no tempo.

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Fumo como uma chaminé,

e já há uns meses que na semana que vem vou parar, 

voltar a remar, meditar e fazer yoga.

Mas hoje,

pouco me preocupam as dúvidas

acerca do caminho ou do tempo das coisas.

Tudo corre,

e as metáforas como que se realizam sozinhas,

sem a antiga necessidade de notá-las a todo instante.

Vai-se o deslumbramento racional com a vida.

Fica a vontade de enfim vivê-la.

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E ao passo que me cerca,

ao meu grande medo de montanha russa,

movimento último em direcção ao mundo,

chave em mãos, 

atrás da porta o ato final de um prólogo por demais extendido,

o Julgamento,

o Convite,

a Viagem...

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Ao passo que me cerca,

fica a certeza, 

que talvez seja o motivo mesmo de toda a trama,

de poder tê-lo dado em consciência

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02/05/2012

É preciso matar o mensageiro

Angústia e dúvida não terão seu típico lugar nas linhas que seguem.
[e ainda assim terminarei em interrogação mal resolvida]

Os desvios necessários serão tomados, afim de evitar-se o conforto dos lugares já mapeados.
[e ainda assim nada de novo virá]

Arriscarei afirmar com convicção toda vez que vier-me a vontade de enevoar os contornos das definições ou de relativizar o peso dessa ou daquela interpretação.
[e ainda assim permanecerei intacto, como observador científico de mim]
 
Segue:


Não resta dúvida; é preciso matar o mensageiro.

O leitor ávido do mundo há muito tornou-se fuga. E da fuga fez em ofício pobre a arte de fazer versos.

Os versos lhe disseram tudo, já de início teve tudo resolvido.

Mas tomou desses caminhos típicos do mundo, e seguiu fazendo versos pra esquecer. Insistindo, ao sofredor que sempre foi, numa inviável sublimação pela inércia.

Foi covarde a vida inteira. Esperou sempre do mundo o ato que devia ser teu.

E ainda aos teus leitores fictícios, fez crer que havia luta, e real filosofia, nesse ato de esperar.

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Sede. Não existe nessas linhas mais que isso

Sede, e talvez um pouco de cansaço

Não resta dúvida; é preciso matar o mensageiro.

Mas como?