04/08/09

Piano Cubista

Procuro uma arte dessa
que se perde num quadro
pra encontrar seus acordes

Buscando em Fellini
o que lhe falta em Borges

Há quando se ache em
Pablo
Velho, morto, de bermuda
Feliz e torto de cansaço

Seria Neruda
ou Picasso
?

Um
e ambos

Ó, sinapse improvável
de sentido esse questionável
quando diz que dois
são um
e o um
sou eu

Que de mim sou todo
e da arte
a meia parte
de um termo infinito
o qual não veio
feio
ou bonito
,
mas tênue,
e de lá
pra cá
e pra lá
nas cores graves de uma clave de fá
.

18/06/09

Sobre as Formas da Natureza

Fazia talvez um mês que desistira da faculdade de Física, e minha única certeza para o futuro era a arte: a certeza mais duvidosa que já tive. Não sabia ao certo o que esperar ou sequer do que se tratava essa vida que eu afirmava querer com tanta convicção. De fato ainda não sei, mas hoje acredito ser justamente desse não saber que se pode pretender buscar algo a que se chame arte. Se sabe exatamente o que quer de uma obra, antes de procurá-la, não há processo artístico envolvido.
Nesse contexto de dúvida, de procura, vi-me numa viagem ao Rio, onde tenho família. Uma oportunidade de, quem sabe, respirar, em outros ares, a mudança que queria pra vida. De forma curiosa, o episódio que relato aqui marcou, talvez pela ironia de ter vindo em momento tão propício a minhas reflexões.
Lia, num banco qualquer do Jardim Botânico, à “Nova Refutação do Tempo”, de Borges - a temática talvez tenha contribuído para o tom geral do encontro – quando fui surpreendido por um homem, já de barbas brancas, com uma câmera fotográfica, que logo desculpou-se pela interrupção. Disse-me que precisava tirar uma foto de uma árvore, da exata posição na qual eu me encontrava. Dei lugar, e o homem sentou-se.
Explicou-me que era artista plástico, e que a foto que buscava se tratava de um estudo estrutural que envolvia as formas da natureza. Apontou-me a árvore. Um galho específico se dividia em dois, e cada um se dividia em outros dois. Observado daquele banco, daquele ângulo preciso, o eixo do galho parecia continuar até o infinito, dividindo-se eternamente. Tentou a foto duas vezes – o céu nublado tornava a estrutura tridimensional da árvore em uma forma chapada, impedindo que a idéia do infinito fosse traduzida para a imagem. Tentou uma terceira vez, e concluiu que teria de voltar outro dia.
A essa altura já conversávamos um pouco sobre a vida. Contei-lhe que saíra da Física, pretendia cursar História, e que buscava arte. Recomendou-me que seguisse a música. Já de pé, enquanto guardava a câmera, disse que devia estar sempre atento às formas da natureza, pois muitas delas lembram a própria racionalidade humana. Com isso, começou a ir embora, sem se despedir.
Ainda próximo, perguntei-lhe, sem me levantar, se não era óbvio, uma vez que a racionalidade humana é parte da natureza. Sem parar completamente virou-se, e respondeu, à distância, que não, que a racionalidade humana é fruto do arbítrio. Continuou a caminhar. Perguntei-lhe algo que não me recordo, e cuja resposta também me foge à memória. À figura já distante do artista gritei uma última indagação, à qual, aos berros e gesticulando, respondeu-me, virou-se uma última vez e sumiu numa esquina do jardim. Lembro-me apenas de sua última frase: “E é desse arbítrio que nasce a idéia”.
Confesso que apesar de ter sido tomado, na ocasião, por um entendimento, deveras surreal, das palavras que acabara de ouvir, agora não consigo explicar do que é que o homem falava. Frustrei-me também, logo de imediato, por não ter uma caneta para anotar as falas que me faltam a esse relato. Mas apesar da teatralidade final do encontro ter dado às palavras esquecidas um certo misticismo, e uma noção de importância, foi em uma análise posterior, mais geral, que encontrei o que de fato pude absorver do episódio.
Disse-me como as formas da natureza lembram a racionalidade humana. Chegara buscando, numa forma da natureza, o infinito. Me impressiona que o evidente silogismo me tenha escapado, mas não consigo deixar de esboçar um sorriso, toda vez que noto a relação, e pergunto-me se ela realmente existe na cabeça de seu autor – mas sei que não importa, e que talvez seja eu esse autor. Bastante conveniente, também, a presença de Borges, e seus tantos infinitos.

16/06/09

Sobre o Blog - 01

Cá estou eu, finalmente. A idéia do blog já vinha se arquitetando há algum tempo, faltava mesmo era sentar e colocar em prática. Acho que cabe aqui uma apresentação, mas não vejo sentido em listar minha idade ou preferências pessoais; não é esse tipo de blog que quero. Limito-me a dizer que este é apenas um lugar para desenvolver, buscar e compartilhar a arte, à qual decidi me dedicar, mas que na minha cabeça ainda não está muito bem definida. Acima de tudo espero que seja algo que me motive a escrever. Em se tratando de blogs, nada muito fora dos padrões, creio eu.

Decidi por abrir a página com dois textos que me pareciam adequados a esse começo de jornada, por serem textos que tratam da relação do escritor com ele mesmo; do artista com sua arte. Tema, este, que tem sido uma constante em minhas reflexões acerca da produção artística e do mundo há algum tempo. Apesar do tom semelhante (se é que essa semelhança é tão óbvia quanto me parece) são assinados por autores bastante distintos: Borges, argentino do começo do século XX, e Gaiman, inglês ainda vivo. Ambos autores que, mesmo tendo sido descobertos por mim há pouco tempo, já fazem peso considerável na minha lista de leituras e influências. São autores cujas idéias, em seus pontos de encontro e em suas divergências, constantemente me propiciam a identificação que existe entre a arte e o observador, quando aquela trás elementos que a este parecem, desde o momento de sua revelação, tão íntimos, tão pessoais, como se lhe pertencessem desde sempre. Mas deixemos isto para um outro post.

Alguns esclarecimentos finais. O título do blog faz também referência a Borges. O Aleph, no conto de mesmo nome, é o ponto que contém todos os pontos do universo. O lugar onde estão todos os lugares, vistos de todos os ângulos, sem se confundirem ou se sobreporem. Não pretendo com o nome inferir a esta humilde página o fardo de conter todos os pontos do universo, mas talvez todas as influências, todas as conexões, todas as produções do meu universo artístico. O título deste post acompanha uma numeração, pois creio ser possível, e provável, que um dia eu queira dizer algo mais a respeito do blog: se nada é permanente, que dirá de uma página ainda tão indefinida como essa. Para manter aberta essa porta, dou o número, e crio a tag. Às epígrafes devo também, com o tempo, adicionar outros textos que julgue pertinentes.

Com isso espero que me mobilize a popular a página com algum conteúdo.
Até.

Fragmento - "Facts in the case of the Departure of Miss Finch" de Neil Gaiman

And part of me - the writer part of me, the bit that has noted the particular way the light hit the broken glass in the puddle of blood even as I staggered out from a car crash, and has observed in exquisite detail the way that my heart was broken, or did not break, in moments of real, profound, personal tragedy - it was that part of me that thought, (...)

"Borges e Eu" de Jorge Luís Borges

Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista tríplice de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos de um autor. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas essas páginas não podem me salvar, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem e da tradição. Além disso, estou destinado a perder-me, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco lhe vou cedendo tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem preservar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros, ou do que no laborioso rasqueado de uma viola. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrebalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.