Fazia talvez um mês que desistira da faculdade de Física, e minha única certeza para o futuro era a arte: a certeza mais duvidosa que já tive. Não sabia ao certo o que esperar ou sequer do que se tratava essa vida que eu afirmava querer com tanta convicção. De fato ainda não sei, mas hoje acredito ser justamente desse não saber que se pode pretender buscar algo a que se chame arte. Se sabe exatamente o que quer de uma obra, antes de procurá-la, não há processo artístico envolvido.
Nesse contexto de dúvida, de procura, vi-me numa viagem ao Rio, onde tenho família. Uma oportunidade de, quem sabe, respirar, em outros ares, a mudança que queria pra vida. De forma curiosa, o episódio que relato aqui marcou, talvez pela ironia de ter vindo em momento tão propício a minhas reflexões.
Lia, num banco qualquer do Jardim Botânico, à “Nova Refutação do Tempo”, de Borges - a temática talvez tenha contribuído para o tom geral do encontro – quando fui surpreendido por um homem, já de barbas brancas, com uma câmera fotográfica, que logo desculpou-se pela interrupção. Disse-me que precisava tirar uma foto de uma árvore, da exata posição na qual eu me encontrava. Dei lugar, e o homem sentou-se.
Explicou-me que era artista plástico, e que a foto que buscava se tratava de um estudo estrutural que envolvia as formas da natureza. Apontou-me a árvore. Um galho específico se dividia em dois, e cada um se dividia em outros dois. Observado daquele banco, daquele ângulo preciso, o eixo do galho parecia continuar até o infinito, dividindo-se eternamente. Tentou a foto duas vezes – o céu nublado tornava a estrutura tridimensional da árvore em uma forma chapada, impedindo que a idéia do infinito fosse traduzida para a imagem. Tentou uma terceira vez, e concluiu que teria de voltar outro dia.
A essa altura já conversávamos um pouco sobre a vida. Contei-lhe que saíra da Física, pretendia cursar História, e que buscava arte. Recomendou-me que seguisse a música. Já de pé, enquanto guardava a câmera, disse que devia estar sempre atento às formas da natureza, pois muitas delas lembram a própria racionalidade humana. Com isso, começou a ir embora, sem se despedir.
Ainda próximo, perguntei-lhe, sem me levantar, se não era óbvio, uma vez que a racionalidade humana é parte da natureza. Sem parar completamente virou-se, e respondeu, à distância, que não, que a racionalidade humana é fruto do arbítrio. Continuou a caminhar. Perguntei-lhe algo que não me recordo, e cuja resposta também me foge à memória. À figura já distante do artista gritei uma última indagação, à qual, aos berros e gesticulando, respondeu-me, virou-se uma última vez e sumiu numa esquina do jardim. Lembro-me apenas de sua última frase: “E é desse arbítrio que nasce a idéia”.
Confesso que apesar de ter sido tomado, na ocasião, por um entendimento, deveras surreal, das palavras que acabara de ouvir, agora não consigo explicar do que é que o homem falava. Frustrei-me também, logo de imediato, por não ter uma caneta para anotar as falas que me faltam a esse relato. Mas apesar da teatralidade final do encontro ter dado às palavras esquecidas um certo misticismo, e uma noção de importância, foi em uma análise posterior, mais geral, que encontrei o que de fato pude absorver do episódio.
Disse-me como as formas da natureza lembram a racionalidade humana. Chegara buscando, numa forma da natureza, o infinito. Me impressiona que o evidente silogismo me tenha escapado, mas não consigo deixar de esboçar um sorriso, toda vez que noto a relação, e pergunto-me se ela realmente existe na cabeça de seu autor – mas sei que não importa, e que talvez seja eu esse autor. Bastante conveniente, também, a presença de Borges, e seus tantos infinitos.