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08/03/2012

Cuidado, mundo cão!


Fazia mais de mês que eu lhe dizia
Toda noite, todo dia
eu repetia:

Vai comprar tomate lá na feira
Vê se tu não cai que ta na beira

Passa em linha reta no sinal
Vermelho pra quem vem na transversal

Cuidado com o estranho ali na esquina
Onde não há o perigo se imagina

Ó lá que talvez faça frio mais tarde
Remédio bom nem sempre é o que arde

Te bota de joelho, reza a missa
E espera apodrecer a tua carniça

Gigante era o teu sonho de criança
Minguou e fez perder toda esperança

Agora dança,
sem nem saber da onde é que vem o som.

A música que toca não é você quem dá o tom.

18/11/2011

Belo Monte e a Nossa Hipocrisia Histórica

Lá desde as aulas de História da tia Andrea que ensinam pra gente como os portugueses mataram todos os coitados dos indíos. De muito pequenos já nos ensinam a chorar aqueles genocídios sem porquê, cometidos por um povo que não tinha ainda a consciência do valor de todas as culturas, do respeito à vida e das valiosas diferenças contidas em todo modo de vida que o ser humano desenvolve.

Nos ensinam também que hoje atingimos essa tal consciência, e que por isso se preservam os índios que restaram em reservas fechadas com cara de museu, e num Dia do Índio que é mais pras nossas crianças que pras deles.

Depois a gente aprende que o buraco era mais em baixo. Não era só questão de consciência, mas vinha de toda uma realidade econômica e política da Europa, onde uns Impérios decadentes buscavam formas de se reinventar. Pra tentar salvar suas economias podres, sustentadas por pilares condenados, desesperadamente avançaram sobre terra que houvesse, jogando sobre um Novo Mundo as lógicas daquele velho, matando aqui todo potencial de renovação que eles mesmos acreditavam buscar.

Matou-se, destrui-se, verteu-se a terra virgem em solo morto europeu. Os Impérios que aqui chegaram primeiro não se salvaram, caíram logo, mas abriram o espaço para que os próximos continuassem seu trabalho. Fomos passando de mão em mão como moeda de troca, cada vez mais europeus, ao ponto de sermos hoje feitos à imagem e semelhança da sociedade burguesa internacional, guardando de nossos primeiros anfitriões apenas a rede de dormir e o banho-nosso-de-cada-dia.

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Cabral não é mais conquistador, e suas caravelas são equipes de engenheiros. O contato com os nativos, se necessário, será feito pela polícia. Nosso Rei, agora eleito democraticamente, é lá posto para a tarefa impossível de manter nos trilhos da estabilidade mais um Império em decadência. Um Império muito mais sutil e difícil de enxergar, que se expressa não em terras mas em formas de viver e modos de produzir.

Dizem que Belo Monte é necessária. E o é, num Brasil preocupado em trilhar o caminho do desenvolvimentismo desenfreado, do predatorismo e da competição internacional. Preocupado em manter-se membro, e firmar-se na hierarquia do grande Império do Capital Globalizado.

Belo Monte é necessária, da mesma forma que a Colônia brasileira era necessária à Metrópole portuguesa: como esperança de sustentação de algo que se tornou insustentável: nosso próprio modo de produção.

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"Ah, mas hoje," nos dizem, "caminhamos com a luz da democracia rumo a uma sociedade cada vez mais igualitária e justa. Hoje, respeitamos os direitos de todas as culturas, de todos os povos, de todos os indivíduos. Hoje atingimos aquela consciência humanitária que faltava aos Impérios de outrora. Nossa democracia garante que toda decisão seja em prol de nosso desenvolvimento integral, como povo e nação."

Patéticas palavras de quem não vê além das verdades oficiais. Verdades oficiais que sempre foram usadas em prol do "tudo corre bem". Verdades oficiais que, quanto mais se aproxima o Império do desespero, mais distantes ficam da realidade.

Patéticas palavras de quem chorou na aula de História pelo indío morto no passado, e não enxerga o índio que morre hoje para a contrução da usina. Que não vê que o que morre não é um ser humano, mas uma forma de existir no mundo, e de relacionar-se com a Terra. Estamos agora mesmo escolhendo o desenvolvimento predatório exigido pela competição capitalista que, numa solene e mórbida metáfora histórica, novamente exige a retirada do índio - mera pedra no caminho.

Como dantes, o Império Burguês também não se salvará. Porque simplesmente não se salvam os Impérios, expressos mais em sua força motriz e produtora, do que em estruturas institucionais e bandeiras que se tentam preservar artificialmente.

Não se pode querer salvar um Império, que guerreia contra si mesmo, só para colocar em movimento suas finanças.

Que destrói sua própria Terra em nome de sua suposta riqueza.

Que que silencia seu próprio povo em nome de sua sobrevivência.

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26/08/2011

Novelos

A grande novidade,
dessa última novela
é que a malvada sogra velha
(vilã maior de toda a trama)
acabou ela grande vencedora


"Como pode o mal vencer na novela das oito?"

Foi o grande assunto da semana

O establishment já afoito,
cobrou medidas pertinentes
e pra não terem que acabar com o diretor
famoso já no ramo das novelas
demitiu-se o estagiário
e fez-se o burburinho
dos jornais

Um colunista
concordava

O outro,
não

.
.
.

E as discussões intermináveis
de tão alheias ao povão
já se morriam pro passado
e os olhos todos se voltavam
pra história
da nova novela

:

a moça rica,
apaixonada pelo empregado do pai

o famoso estilista,
em fim de vida e sem herdeiros

a família classe média,
de alguma forma envolvida na trama


E uma galera lá do morro,

o ladrão,
que se dá mal

a boa moça,
que sonha em ser atriz

e um preto velho
que sempre diz:

"Pra você ver que pobre
também pode ser feliz"

01/02/2011

Sobre a Mitologia Contemporânea

Li cerca de um décimo dessa entrevista quando comecei a escrever isso. Faz algum tempo desde a última vez que algo me instigou tanto assim a escrever.

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Se a mitologia coletiva desapareceu nos dias de hoje, foi pra dar lugar à multiplicidade de uma mitologia fragmentária e individualizada.

De certa forma, os elos que nos uniam num conjunto humano minimamente coeso, funcional - saudável talvez - hoje transmutaram-se em realidades concorrentes superpostas

A televisão criou um ambiente controlado, onde os mitos comuns ainda unificavam, ao mesmo tempo em que começavam a fragmentar.

Com uma quantidade limitada de canais, se podia escolher o que assistir, mas ainda se estava preso a um conjunto limitado de opções.

A verdadeira mitologia pós-moderna é a amálgama cultural da internet.

São as referências a ícones de um passado recente.

É a idolatria a uma cultura em decadência.

São tanto as narrativas dispersas, rasas e fúteis, quanto as intrinsecamente construídas sobre análises perspicases da incoerência presente.

Somos a era da abundância e do excesso

Da reverência, dos ídolos genéricos, de símbolos e bandeiras vazias.

Somos o barroco do individualismo burguês.

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Mas se temos a facetação caleidoscópica e esquizfrênica a guiar a nova sociedade global, se os mitos se vêem individualizados e as leis relativizadas, cabe lembrar daquela mesma semelhança que se faz tão clara entre toda a mitologia, independente de sua origem.

Por mais díspares e pessoais possam ser as infinitas histórias possíveis do indivíduo, todas hão de tratar do mesmo assunto, caminhar ao fim numa mesma direção, orbitar um centro comum.

Por mais que pareçam gritar e mover-se rumo a territórios muito distantes daquele mais puramente espiritual, as incoerências do ser humano atual existem, e mesmo essa mitologia proveniente de seus mais exacerbados representantes há de ser imagem fiel de uma faceta concreta dessa busca existencial.

A experiência humana rumo ao desconhecido da existência há de ser ainda o fator de convergência de toda a mitologia contemporânea.

A resposta não é retornar às velhas formas de se tratar do mito. Tentar jogar com lógicas anacrônicas, saudosamente tentando reviver um passado inatingível.

Se chegamos aqui, viemos por uma longa estrada, e esquivar-se da gigantesca tarefa de sair pelo outro lado desse túnel é adiar nossa estadia na eterna crise do indivíduo burguês.

Se nos trouxe aqui o dinheiro, o superfluo, o consumo, também foram de suma importância o expressionismo, o surrealismo, o jazz e O Capital.

A fragmentação dos mitos é inevitável. É realidade corrente.

É preciso saber jogar esse novo jogo, e fazê-lo com as novas regras.

E para isso é indispensável lembrar que se aplicam ainda sobre as mesmas questões fundamentais.

Que se as linhas de raciocínio e as novas abordagens têm de ser trabalhadas, o assunto continua sendo o mesmo.

O homem ainda é o mesmo.

Só o vemos hoje um pouco mais de perto, e talvez sob um novo ângulo.

15/10/2010

Us and Them

Us, and them
And after all we're only ordinary men


Os que querem voltar ao dia de ontem, tentando ainda enxergá-lo nos destroços de hoje, e os que sonham o amanhã perfeito, ignorando as duras rédeas do presente.

Os primeiros pedem a nós que haja calma, coerência, disciplina. Em seus momentos mais sensíveis, escondem-se em torres de marfim, e reclamam que o direito de falar seja exclusivo dos que estejam já no topo.

Os segundos, talvez até mais irritantes, tentam sumir com os primeiros através da negação. Ignoram os obstáculos reais, se perdendo em planos de um futuro inalcansável, sem preencher jamais a lacuna que se cria. As "forças conservadoras" se tornam, pela cegueira voluntária, fantasmas muito menos concretos do que realmente são.

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A utilizar uma frase de um presidente em fim de mandato: "Sou um realista político e jamais endossarei rupturas". Traz a clareza que talvez falte a ambos os lados.

Uns querem romper com a marcha inevitável que é a cultura humana. Outros querem saltar três passos por vez, como se soubessem já todos os caminhos, e através de suas conclusões precipitadas tivessem resolvido o mundo todo.

Haven't you heard?
it's a battle of words


É hora de construirmos algumas pontes. O caminho da ruptura não pôde fazer mais que tornar a ruptura o novo padrão. O encadeamento de infindáveis negações do passado, aos quais responde-se com a negação do presente.

Assim o tempo faz quebrar famílias, partidos e sociedades. A ruptura e a negação só podem levar ao extremismo.

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É hora de não mais negarmos nada que nos trouxe até aqui, não mais buscarmos a revolução iminente. Não mais gritarmos palavras inflamadas de mudança, achando que assim derrubam-se as paredes que nos separam.

Up and down.

But in the end it's only round and round.


É hora de parar de condenar os que não se movem como fosse isso opção consciente, e não produto de um contexto.

Out of the way, it's a busy day
I've got things on my mind.


É hora de aceitar que eles, como nós, também são parte e fruto desse mesmo mundo, desse mesmo tempo. Ignorar seus anseios, suas dúvidas, sua imobilidade, é recusar uma parte de nós mesmos, é fechar os olhos a demônios nossos com os quais não sabemos lidar.

With, without.
And who'll deny it's what the fighting's all about?


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Na sociedade, como na vida, é preciso entender que não se supera obstáculos através de sua mera negação, nem através de revoluções instantâneas.

Não se vence as barreiras sem buscar seu sentido e sua origem.

Também não se conquista os indiferentes sem lhes oferecer algo mais palpável que a ruptura.

Não, não é mais tempo de romper, é tempo de mostrar ser possível construir.

30/03/2010

Pitanga em Pé de Amora

Descobri essa banda sábado e achei do caralho. De alguma forma chegou esse comentário aqui no blog, então eu abro convite pra quem quer que leia isso:

"Desculpe usar este epaço para isso mas gostaria de convidá-lo para a apresentação que o grupo "Pitanga em Pé de Amora" fará no projeto Prata da Casa - Choperia do Sesc Pompeia, dia 06 de abril (terça), ás 21h, entrada franca. Traga os amigos. Abs. Ricardo Freire"

Ta aqui o myspace deles:

http://www.myspace.com/pitangaempedeamora

Só acho que as pessoas deviam parar de se desculpar tanto. A gente acha que tudo que fazemos de alguma forma ta incomodando alguém, invadindo o espaço alheio. Talvez primeiro as pessoas devam parar de se ofender tanto. Parece que todo o nosso mundo se baseia nos cuidados que a gente toma pra não incomodar os outros. Toda ação se perde na duvida de como o que a gente quer fazer pode invadir a liberdade alheia. Pior que nem chegamos a ir de fato descobrir quanto o outro realmente se importa com aquilo que a gente quer fazer. Fica tudo baseado no que eu acho que você vai achar, e eu nem pergunto com medo de ofender.
Pelo menos na internet isso tinha que acabar. Invadam meu espaço o quanto quiserem, ele é virtual e por isso cabe quantos forem. De repente assim a gente consegue mostrar pras pessoas o quanto a nossa noção de posse e individualidade no mundo real ta só na nossa cabeça.


Caralho, não consigo nem postar um convite pra um show sem desenvolver dois parágrafos de reflexão. Melhor parar com isso antes que alguém se ofenda.

15/03/2010

Retrato de uma relação indireta

De manhã ele lia o jornal enquanto esperava o café; as sombrancelhas franzidas, inevitavelmente.

Era como se o dia só começasse mesmo quando ele lembrava de se preocupar. Isso costumava acontecer logo que tocava o despertador; às vezes uns poucos segundos antes. Eram tantas as preocupações, na empresa, em casa, na vida, no futuro. O jornal servia pra lembrar que além de tudo isso, também havia com o que se preocupar do outro lado do mundo: a guerra, o petróleo e o presidente maluco de alguma ditadura no meio de um continente enorme, que ele sabia existir, mas nunca tinha visto com os próprios olhos. Acho inclusive que morreu sem ver.

Vinha então a preta lhe servir o café, amargo, que era pra lembrar que o mundo é o que é. E com a preta vinha o sorriso branco da preta, que às vezes o fazia pensar na vida.

"A sua sorte" dizia ele "é que seus problemas são todos reais." enquanto a preta lavava a louça e ouvia, sorrindo. "É o barraco que alaga, o dinheiro que falta, o preço do pão." e tomava um gole do café. "São essas coisas da vida. Daí você sorri, porque sabe que a vida é a vida."

Uma pausa, uma olhada pra página do jornal, e as sombrancelhas, que às vezes, num momento de distração, relaxavam um pouquinho, novamente em inflexão total.

"A gente que se perde em preocupações acaba tendo que se preocupar com tudo. Começa tentando entender o mundo, e às vezes esquece da vida. Não vai achar que eu não me importo com você, é justamente o contrário. Tem muita coisa errada no mundo sabe, então alguém tem que tentar entender, pra poder de repente te dar uma casa melhor, colocar todo aquele povo da tua favela em casa própria, acabar com essa pobreza, com essa guerra, com essa roubalheira da política."

E a preta, a sorrir, fechava a água da torneira, e ia pegar a xícara vazia em cima da mesa.

"A gente se perde em idéias, mas é porque sabe que ta tentando resolver tudo. É pra você poder viver assim despreocupada, lidando com seus problemas todo dia, e poder sorrir porque sabe que tem gente pensando pra resolver o resto todo."

Vendo de novo o sorriso branco da preta ele dizia "Você entende né?"

E a preta terminava de lavar a xícara, dava um até logo sincero, alegre até, e ia pegar a roupa suja pra colocar na máquina.

Antes de levantar ele sentia um incômodo que já não lhe era estranho, fechava o jornal, e ia trabalhar pensando em talvez parar de pensar.

Sobre o prédio da FAU

Na FAU se ouve tudo que acontece dentro do prédio. O interior é aberto a si mesmo; apenas a si mesmo. Da FAU não se vê nada do mundo; se fecha. Qualquer comunicação que se queira realizar do meio externo deve vir de baixo. Qualquer um que queira dizer algo à tão conceituada classe artística oficial deve primeiro se fazer insignificante, embasbacado pela grandeza sólida da imensa caixa de concreto. Qualquer que seja o objetivo, uma vez dentro do prédio a única opção é conformar-se com a própria insignificância e começar a subir. A cada rampa a luz branca do sol é lentamente substituída pelo amarelo filtrado das lentes através das quais os tais artistas se permitem o contato com o mundo: uma luz amarela, uniforme e que vem de cima; a aura dourada projetada sobre as cabeças iluminadas. E mesmo esse contato se dá sem que se possa ver o céu. O amarelo serve apenas para que se enxergue e glorifique aquilo que já está lá dentro.

14/03/2010

Ensaio de um Reflexão Exagerada

E o sistema de ensino? Cenário de ficção científica. Pretende-se padronizar as mentes que passam pelas escolas. Os filhos da elite têm suas cabeças diariamente bombardeadas por conteúdo do mais diverso, fora de contexto e potencialmente inútil. “Hoje não se vive sem saber um pouco de tudo. São outros tempos.” É o discurso de uma “self-important” classe social que repudia todo tipo de trabalho físico. Já as escolas públicas são mantidas num nível mínimo. “Se tomam gosto por pensar, quem é que vai trabalhar nesse país?”, disse o ministro da educação, numa de suas esporádicas visitas ao seu gabinete.

“It's our own brave new world”, diz o poeta, mas as palavras se perdem na cacofonia de uma esquina movimentada. Somos sim, numerados, registrados e controlados por toda nossa vida. Ou pelo menos é o que se espera de nós; nada mais. E a que preço?

Do lado de cá, um batalhão de adolescentes desconfortáveis dentro de uma sala de aula, que nunca chegam a saber o que realmente se espera deles. (Quão absurdo é querer padronizar o processo de aprendizado de um mecanismo tão complexo quanto o cérebro humano? Resultado de um mundo regido por burocratas: é a era do gerenciamento de pessoas. Gerenciamento de pessoas, há!, melhor fechar os parenteses). Desde cedo diagnosticamos crianças com “déficit de atenção”. Os pais se preocupam, “Imagine se ele tem que virar lixeiro”. Aulas de reforço, horas de estudo, psicológos, remédios (?!?!), e não se acha o suposto problema. “O garoto não quer saber de estudar”, “Tudo bem querida, a gente paga o diploma e eu coloco ele pra fazer algo na empresa”.

Do lado de lá, dessa tênue linha imaginária que a nós parece uma muralha, milhões de mentes humanas artificialmente isoladas dum tal “mundo intelectual”. Quantos pensadores brilhantes em potencial passam a vida trabalhando como semi-escravos no imenso interior desse país? Ou morrem de fome numa favela do outro lado da cidade?

E se o drama lá é concreto, palpável, aqui é psicológico. Ousaria dizer “real” e “imaginário”? Acho que não chego a tanto. Parece que tomamos verdadeiro nojo do mundo a nossa volta, até nossos momentos mais desesperadores decorrem de nossas reflexões, “all in our heads”. O que acontece quando nos deparamos com desafios físicos reais e inevitáveis? Quando somos forçados pra fora da apatia, sem possibilidade de mergulharmos de volta no ópio intelectual de nosso tempo? Can we take it? Can I?

31/01/2010

Funny Fact

Até aqui me parece que nada foi definitivo. É tudo um grande ensaio. Me sinto como que apenas levado pelos acontecimentos. Onde estão as decisões fundamentais de nossas vidas? Terão todas sido reduzidas a itens nesse imenso menu? Qual curso, qual matéria, qual especialização? Poucas são as ocasiões em que essas escolhas não podem esperar por mais alguns meses, ou serem deixadas para o ano seguinte; ou o próximo. Criamos essa bolha dentro da qual podemos escolher a vida que vamos levar, olhando para o futuro como um amontoado de caminhos que podem ser trilhados, fazemos planos, escolhemos carreiras: Você pode ser o que quiser! E de fato, podemos. A bolha sustenta a si mesma, escolha uma carreira, faça uma faculdade, e terá no mínimo um emprego medíocre que você mesmo escolheu.

A palavra da nossa era é a estabilidade. Provável fruto de algum racionalismo extremamente arrogante, a doutrina é ter uma vida estável. A vida da classe média hoje se resume muito a isso. Você tem um bom emprego, um carro e um apartamento, pra que complicar as coisas? Qualquer dúvida a respeito da própria felicidade é automaticamente espremida naqueles 10 minutos de reflexão que precedem o sono todas as noites. Melhor assim, que de manhã já nem se lembra mais disso.

Escolhemos eliminar de nossas vidas todas as dúvidas e incertezas. Vivemos mecanicamente como peças dessa máquina, que controla desde nossa alimentação até nosso entretenimento. Estabilidade. E com qual resultado? Pessoas com um falso sentimento de felicidade, cujos raros momentos de auto-análise revelam o vazio desesperador do consumismo.

Um psicólogo talvez diga tudo o que você não quer pensar por si mesmo. Que sua vida é vazia, você não gosta do que faz, mas você tem muito medo de quebrar seu último dogma: a estabilidade. Criado em um mundo totalmente controlado, você nunca aprendeu a lidar nem com o desconhecido, nem com suas próprias vontades. E apesar da vontade de enfrentar o desconhecido, você opta pelo controle. Controle total do seu pequeno mundo, certo de que qualquer problema deve estar só na sua cabeça; afinal as outras pessoas parecem perfeitamente felizes.

Criamos a bolha, instituímos nosso admirável mundo novo, mas a que preço? Para que possamos viver nossas vidas estáveis, vazias e deprimentes, milhões de seres humanos são obrigados a enfrentar todo dia a constante luta pela sobrevivência, na miséria total. O medo, o desespero, a dúvida. Sentimentos que conhecemos através da ficção e das artes, como se não pertencessem a nós.
Funny fact: Pessoas morrem de fome, para que você possa viver uma vida vazia.