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30/11/2012

Aos meus,

alguns melhores amigos, protagonistas de tantos enredos,

incontáveis coadjuvantes chave do passado,

família, metáfora primeira da vida, 

ou ainda das tantas mulheres,
que nunca ousei realmente amar…

-

Meu quarto [de memórias] anda uma zona.

E o peso das coisas todas - papéis, passados, tudo - segue rondando minha vida numa iminência que já não me incomoda.

Todo o antes, pouco vivido, mas observado com uma atenção inexplicável,

como que recombina-se freneticamente diante de meus passos

formando frente ao olhar um mundo que não poderia sequer existir,

não fosse a presença de cada um de vocês em minha vasta galeria de lembranças,

e as incessantes combinações cognitivas que fazem dela meu mundo.

Nunca morreram, nenhum de vocês.

Fizeram-me no que sou, 

daquilo que escolhi ser ao lado de cada um de vocês.

E seguem em mim como frutos únicos

de encontros inéditos no tempo.

--

Fumo como uma chaminé,

e já há uns meses que na semana que vem vou parar, 

voltar a remar, meditar e fazer yoga.

Mas hoje,

pouco me preocupam as dúvidas

acerca do caminho ou do tempo das coisas.

Tudo corre,

e as metáforas como que se realizam sozinhas,

sem a antiga necessidade de notá-las a todo instante.

Vai-se o deslumbramento racional com a vida.

Fica a vontade de enfim vivê-la.

---

E ao passo que me cerca,

ao meu grande medo de montanha russa,

movimento último em direcção ao mundo,

chave em mãos, 

atrás da porta o ato final de um prólogo por demais extendido,

o Julgamento,

o Convite,

a Viagem...

;

Ao passo que me cerca,

fica a certeza, 

que talvez seja o motivo mesmo de toda a trama,

de poder tê-lo dado em consciência

.

02/05/2012

É preciso matar o mensageiro

Angústia e dúvida não terão seu típico lugar nas linhas que seguem.
[e ainda assim terminarei em interrogação mal resolvida]

Os desvios necessários serão tomados, afim de evitar-se o conforto dos lugares já mapeados.
[e ainda assim nada de novo virá]

Arriscarei afirmar com convicção toda vez que vier-me a vontade de enevoar os contornos das definições ou de relativizar o peso dessa ou daquela interpretação.
[e ainda assim permanecerei intacto, como observador científico de mim]
 
Segue:


Não resta dúvida; é preciso matar o mensageiro.

O leitor ávido do mundo há muito tornou-se fuga. E da fuga fez em ofício pobre a arte de fazer versos.

Os versos lhe disseram tudo, já de início teve tudo resolvido.

Mas tomou desses caminhos típicos do mundo, e seguiu fazendo versos pra esquecer. Insistindo, ao sofredor que sempre foi, numa inviável sublimação pela inércia.

Foi covarde a vida inteira. Esperou sempre do mundo o ato que devia ser teu.

E ainda aos teus leitores fictícios, fez crer que havia luta, e real filosofia, nesse ato de esperar.

;

Sede. Não existe nessas linhas mais que isso

Sede, e talvez um pouco de cansaço

Não resta dúvida; é preciso matar o mensageiro.

Mas como?

15/04/2012

Aqui

Acostumei-me a estar aqui,
frente à porta cerrada da vida,
com a mão já na maçaneta,
e um suspiro de pura hesitação

Não fui tão feliz quanto alguns que conheço
Nem vivi certas belezas
que por vezes falseei em canto

Acostumei-me a viver assim,
um pouco à margem da vida
.
.
.

02/11/2011

Adeus TeóricoPai

Sabe, por muitas vezes não desenho, pois me vejo insonemente procurando a teoria atrás do traço.

Não me entrego, nunca, porque acho ter sido eu o escolhido a mapear os próximos passos todos, que o Homem até hoje deu sem perceber.

E no fim sou eu, que sem perceber, despercebo tudo na mania de entender as coisas sem viver.

Esse texto mesmo. Entendí-o já antes mesmo de sentar ao teclado.

E nesse não-processo criativo, ataco a minha própria afirmação: "...acredito ser justamente desse não saber que se pode pretender buscar algo a que se chame arte. Se sabe exatamente o que quer de uma obra, antes de procurá-la, não há processo artístico envolvido."


;

Pai, de tal distância: "O que você tenta explicar, talvez só possa mesmo ser alcançado na arte."

E eu, sem perceber, comprei um desafio que nunca foi lançado, contra um homem mais que bem intencionado: "Está errado."

E talvez esteja mesmo. Mas sou eu, de carne, não de idéias, que já não aguenta mais.

Sou eu que quero parar, e dizer que não deu.

Sou eu que quero abraçar a arte afinal.

;


Então a luta é contra aquilo, que até aqui foi tido como eu.

Minha arma, minha casa, minha alma...

...promessa de vida e glória.

O eu-melhor-aluno, o eu-multidisciplinar, o eu-teoria-de-tudo, o eu-já-esperava-por-isso.

E no seu lugar - isso que assusta - há de vir algo incerto, incontrolável, dadaísta, surreal, impeto-fogo sem pátria ou moral. Faminto de sangue novo, de corpos nus, de arte pura e vida em alto mar - lua em Áries contra os firmes pés do Virgem ascendente!

Eis um belo abismo,
prum aquariano se jogar.

18/10/2011

Perco-me

E todas as coisas que me fazem viver,
vão aos poucos se tornando
aquilo que me mata.

Pareço vítima exemplar de nosso tempo,
incapaz de achar a vida,
em meio a toda ela.

Perco-me
em fios de possibilidade

;

20/08/2011

Até hoje, lá em casa

Calado da vida, fechado do
mundo
Cego, surdo e quase mudo

Desses que só põem a falar
quando há certeza
não terá resposta
pra escutar

É esperar
uma certeza que nunca se tem

;

E eu cansei de não fazer
por não saber

e de esperar
um tal momento certo pra dizer
porque ele
nunca
vem

;

Só sei que o que antes era peso
tenho feito em melodia
pra alegrar essa minha vida tardia
que eu bem queria
começasse
agora

Parando de ter
tido tudo

quebrando o
resto todo
que até
aqui
se foi guardando

de tralhas passadas
de portas fechadas

De pele morta
sobre ossos
frios

Tudo posto
a nú

;

Jaz aqui
um finado eu,
que não morreu
,
mas queria muito acreditar-se
renascido

23/03/2011

Life Sta(ge)[te]

A strange feeling kept him aware that he shouldn't even know what those words meant. He was seeing things from other realities, from different time lines on fictious universes. And even so, he could understand everything.

He dealt with patterns from different cultures, building thoughts impossible to his brain's very biological structures. Transversal analyses compared infinitly different social phenomena, uniquely complex bioms, and literature that evaded any symbolic system. Logicaly dancing clouds of interpretation transmuted rapidly underneath his stunned mask. Eyes that could not follow the everchanging lights remained unfocused, as ears turned to itselves, hearing nothing but a very low buzz, that varied lazily in no apparent relation to what happened outside.

Nothing, absolutely nothing, no structure that could ever exist on any of those worlds, would have been able to hold in memory everything that went through his senses, instantly transmuted into pure thought, that kept it's essence on a present idea, but existed only between the previous and next stages of a non-linear evolution.

Still, that did not bother him, as he craved only for a fresh step on his kaleidoscopic mindwalk. Leaving everything behind, on every next moment; being whole and newborn for each door that opened. Hoping, with a conscious melancholy lingering on the backstage of his burning impetus, only to reach that impossible conclusion before this surreal life-dreaming ended - before movement ceased, questions vanished and lights went off

.

16/03/2011

Purple

All my life I've tried to love
A painted love that's never been
And now from ashes comes the sun
Lightning paths I'd never seen

Slightly drunk from sleepless dreams
Worlds unfold beneath my feet
All my women turned to smoke
Burnt from heartless purple glass

Tired of opaque loving eyes
I catch the glimpse of real stares
Looking through in curious glances
To find in me my truths and dares

But just as I approach the ground
A last sad joke remains unknit
Somehow testing my suspicion
That there is not an answer fit

Is this just one more shade of purple
Built from hope on lifeless glass?

;

In times of choice as tight as these
Choose it once for no return

Let it burn as hence I've learnt
Or call this vase the one to save?

11/03/2011

Silvered Lady Moon

It's always night when she appears
Who is this silvered lady moon?
It's a good night, but she's crying
as something hopes she cried for me

;

I'm all alone,
no sword in hand

From where I come
a foe's
a friend

;

Would I dare hope these tears for me?
Stronger men have surely failed

Am I enough to cross this ocean?
Wiser ones might promptly flee

I never could
with the simplest maze of masks
So who am I
against her doorless house of mirrors?

;

I hope we can
I hope we will

I hope we find a way to be
some more than
two
more
people
[try] [cry] [lie]
ing


Where would her secrets
lead this clown
Who's never finished a single path?


I hope and dream, but cannot see
why should I
stay
put, and
just
wait

How should this jester
steal the crown
before she's
face
to
fac
e
with death
?
.
.
.

As paralyzed I watch her tears
My melting fears release my feet
Her sightless eyes stare through my shadows
Just one more step and she might see

10/03/2011

Missed you once

What you thinkn'
How you feel
Thought i'd stop
by, to say
hi.

Fire's been
lit,
but heats
only
the walls and carpets,

As't smokes the room,
in foreign accents;

Smelled like
bad things,
sad ones
really.

~

Going now,
's no one home
Missed you,
once. but
n'all seem's
gone.

11/10/2010

Em tempo, um brinde

Vivi o que era belo
em manhãs de pouco sol
Sorri com teus castelos
quando o frio me fez sofrer

Em meus meses de derrotas solitárias,
reergui-me com teus cantos de batalha

Foste a primeira que enxerguei maravilhado
a domar monstros que viria achar em mim
É certo que nem sempre vencedora
mas da caça, uma eterna caçadora

Acorrentados junto ao mundo submerso
me roíam sem que a dor se convertesse
em terra firme onde houvesse o que caçar

Mas de tudo me valeu saber que os mares
que eu por entre as calmarias mapeava
não eram de todo selvagens,
mas apenas inéditos àquele meu olhar

;

No meu trato com as marés desse oceano
Lembro às vezes de sonhadas não-viagens
E das vezes que eu deixei você passar

Em meu delírio a refratar tua luz de sonho
Tantas vezes quanto quis me ver imagem
Em teus cantos, em teus versos
Em teu turvo espelho d'água

Por tudo aquilo que eu tentasse
Nada teu pôde lembrar-me
Traço algum da minha face

Ignorava que a vontade curiosa
Não achada, indeclarada e duvidosa
Não era mais dos meus amores inventados
Senão de fato uma janela em contratempo

;

Se finalmente vejo olhos meus me olharem
dos teus murais de águas já um tanto mais claras
Não deixa de tomar-me essa surpresa
ao ver que a ti,
figura eterna de um passado tão presente,
possa eu ser qualquer imagem na qual valha se inspirar

Não raro inspiram-nos idéias,
surgidas firmes sobre os nossos sonhos vãos
Se não quis eu jogar com a tua farsa,
não foi em prol dalgum meu mundo menos falso

Talvez o tempo cure a falta do instinto
e mostre certo o não-encontro num momento
no qual dois mundos construídos sobre areia
ameaçavam com tal força se encontrar
erguendo torres sobre pedra imaginária
das tantas dores espalhadas pelo vento

04/09/2010

Trickster

"Dizem que os tricksters, os Lokis e os viajantes do mundo andam como que por cima da corda bamba, sem assumir um lado, sem escolher uma forma definida, vivendo entre o paradoxo e o mutável. Mas às vezes, por acidente, eles caem dentro da beleza. E por vezes constroem um eu, com começo, meio, fim e História. Mas no fundo sua natureza nunca vai ficar parada, e eles subirão novamente na corda, para continuar procurando."

Isso é um pedaço de um comentário do Charles, a essa resposta que dei a um texto dele.

Tenho que dizer que quando li me identifiquei muito com essa descrição. Inclusive, já há algum tempo, me veio a imagem de um personagem indefinido, em constante mutação. No exato momento em que ele ou alguém conseguem definí-lo, enxergá-lo com clareza, ele muda, se transforma, mergulha de novo no inconstante, no disforme. Esses personagens que simplesmente me vêm à mente, já prontos, como que se revelassem pra mim, costumam se mostrar, com o tempo, meros entendimentos de minha própria condição, de minha própria pessoa. Esse eu demorei pra conseguir aceitar, mas logo compreendi, e me deixei concluir algumas das coisas que coloquei no texto Pedaços ao Vento.

Lendo essa descrição sobre os tricksters fiquei curioso e fui atrás de mais na internet. De fato, eu tenho uma tendência grande nesse sentido da não permanência. Mas isso me faz pensar muito nas pessoas que eu acabo abandonando. Tem uma coisa em mim que sabe que deixar um contexto agora e ir buscar um novo começo, uma nova História, não fecha as portas, lá na frente, para novos contextos com aqueles mesmos personagens.

Mas me dói, e não sei se é por eu me apegar muito às pessoas, às tramas e às lembranças das pequenas coisas, ou se é pela sensação de que sou eu que as abandono. A sensação insuportável de que no fundo eu não dependo delas, não preciso delas. De certa forma essa interpretação me coloca como alguém que se aproveita dos enredos enquanto eles lhe forem úteis e produtivos, e os deixa, sem mais, no momento em que já não o são.

Fosse realmente assim, acho que não seria tão difícil os momento de ruptura. Não seriam tão importantes as memórias, nem seriam tão grandes as esperanças do reencontro. Não sei como classificar esse meu comportamento. Queria acreditar que se baseia não no abandono, mas na tentativa de tirar o melhor de todo mundo que eu encontro, e buscar em outras fontes as soluções quando isso já não é possível.

Hoje eu me vejo caindo de novo "dentro da beleza", construindo um começo. É reconfortante, é estimulante. É um pouco como nascer de novo, com a oportunidade de ser olhado por novos olhos ao mesmo tempo em que se enxerga novas caras. Inclusive tenho tido a oportunidade de reencontrar alguns rostos aos quais há muito não prestava atenção.

Mas me vem um leve incômodo, por saber que lá na frente há de existir um novo ponto de ruptura. Espero conseguir lidar com ele melhor do que lidei com o último.

15/08/2010

As cartas marcadas

E no final não era isso que queria? Não era esse silêncio, essa saudade, esse quarto cheio de nada?

Não ter ninguém pra seguir. Ninguém a quem deixar de contar as coisas. Ninguém sobre quem deixar pesar as esperanças não declaradas.

Não mais ter que ouvir o baque surdo dos meus sonhos vãos quebrando. Não mais ter que lidar com esse vácuo inexprimível das possibilidades alheias, que só eu vi, e só eu pude deixar passar.

Não esperar mais que o amanhã possa ser um dia nosso. Não mais achar que hoje somos juntos algo a mais, algo belo, além da vida.

Poder achar em mim um eu comigo mesmo. Poder perguntar o que eu quero construir, e não mais procurar quem já o tenha construído por mim. Ter talvez a coragem de assumir a autoria dos meus próprios sonhos.

Ter a certeza de que a força necessária há de ser achada no espelho. Não por convicção. Não por doutrina. Mas só por questão de harmonia. Quando um lado se põe tanto em evidência, às vezes faz crer que o outro não existe mais.

E nessa hora se faz bem ao quebrar os velhos frascos, pra tentar lembrar quais perfumes certa vez lhes deram vida, antes de mortos, empalhados, enfeitarem as prateleiras, as cátedras, as molduras, as memórias.

Não se preocupe. O que eu deixo não é real. Não há de ser. Não abandono você, nem nenhum de vocês. Mas os fantasmas, aos quais dei máscaras que roubei dos rostos teus.

Faço pra poder dar a alguém de novo um rosto meu inteiro. Que não seja roubado aos poucos, nem espelhe nos olhos que sonham. Mas um rosto que possa sonhar por si só, e sorrir e contar, e às vezes também esquecer do que viu.

Esquecer, esquecer. Já sei que nada se esquece, tudo se transforma. Então porque tamanha resistência pra deixar descer ao chão mais esse castelo de cartas marcadas? Chega dele, não?

08/08/2010

Pedaços ao vento.

Em resposta a isso:

É curioso, minha autocrítica, ou talvez algum perfeccionismo não declarado, costumam destruir meus próprios eus e todas as coisas nas quais eles acreditam, ou quiseram acreditar.

Assim que noto quem sou e o que quero, passo a dar uma ênfase absurda ao processo destrutivo de questionar essa tal certeza.

Como se o momento em que um eu se consolida, se define com total clareza, fosse o momento de abandoná-lo. E o faço com uma mistura de estagnação e desespero, como se parasse assustado num trecho da estrada sem bifurcações, e cobrasse de mim mesmo encontrar imediatamente um outro caminho.

Mas às vezes me vem também a saudade do chão, de algum chão. Ultimamente, sem ter muito o que desconstruir, tenho sentido uma forte inclinação a tentar juntar meus pedaços que eu abandonei por aí. Especialmente porque sei que foram eles, mesmo descontruídos e rejeitados, que me fizeram apontar a vela na direção atual. Talvez a reciclagem desses pedaços esquecidos me proporcionem o vento que falta.

19/07/2010

Kantor e Eu

Durante a semana que passou, desde terça-feira até esse domingo, participei de um ciclo de palestras sobre Tadeusz Kantor, artista polonês. Digo artista, pois apesar de ter ficado famoso por suas peças, foi muito mais que dramaturgo. Acredito que foi, acima de tudo, um grande explorador. Não é meu intuito aqui discorrer sobre sua obra, mas falar da assombrosa sensação que vem se construindo em mim desde que tive contato com Kantor pela primeira vez.

Encontro-o num momento de minha vida em que busco reconciliar as terras inquietas de minha cabeça, com o mundo material, com a vida. E há pouco tempo descobri no teatro a ferramenta maravilhosa que talvez me permita tal salto. Li um pouco de Brecth, Boal, e engolí-os com gosto. Mas Kantor apareceu de repente, e aos poucos foi se construindo a minha frente como um espelho histórico de semelhança assustadora. Não quero aqui colocar-me, em grandeza, ou mesmo em potencial, nas alturas alcançadas pelo artista. Mas queria registrar alguns pontos que me fizeram, ao longo da semana, cultivar a duvidosa suspeita de nosso parentesco filosófico.

A primeira coisa que me chamou atenção foram os desenhos. A idéia, que já me é comum há um bom tempo, de entender os desenhos como forma de se pensar, como forma de entender a própria mente. Kantor observa em suas telas e em seus rascunhos, as próprias bases de sua filosofia. Explora os espaços e os seres humanos enquanto matéria, e suas relações com o mundo e com si mesmos, e para isso volta-se para as formas da própria arte. A arte como espelho da mente, que inevitavelmente é espelho das características de nosso próprio universo. A idéia, talvez, de que nosso sistema é fechado, e que, como tal, tudo que há é passível de se assumir como símbolo de todas as outras coisas. É a busca do todo na parte, e da parte na explicação do todo. E nisso, encontro muito do que fiz durante boa parte dos últimos dois anos. A busca, na forma musical, na literatura, e nos meus próprios desenhos, pelos vislumbres esporádicos da própria lógica de nosso universo.

A segunda característica que quero colocar aqui está no caráter temático de sua última fase de produção. No fim de sua vida, Kantor volta-se ao que é chamado de Teatro da Memória. Explora as regiões da memória enquanto ambiente concreto, colocando-as em pé de igualdade com a realidade. Mais que isso, lida com a dificuldade de se lidar com a memória. Nesse aspecto, acredito que tenha antecipado com muita sensibilidade, a crise maior do século XX, e do próprio pós-modernismo, que nos é tão presente nos dias de hoje. Eu, já há algum tempo, havia chegado, através de uma história em quadrinhos, em crise semelhante, além de já ter dado ao tema da memória grande importância em várias de minhas ponderações. Pretendo explorar mais a fundo esse ponto. As coisas ainda estão muito frescas na cabeça, muito inconstantes.

Em sua penúltima peça, "Aqui Não Volto Mais", e aqui minha identificação começou a tomar proporções realmente assustadoras, Kantor, ainda no tema da memória, se encontra na Estalagem da Memória, aonde encontra personagens, objetos e situações de diversas peças de sua carreira. Aqui, mostra a dificuldade do indivíduo, do criador, de lidar com seus símbolos e personagens do passado. A confusão criativa, a impossibilidade de se alcançar a coerência, em meio ao caos de personagens, personalidades, vontades e tensões absurdamente dissonantes. O homem velho, sentado à mesa da Estalagem da Memória, lida com o peso de seu próprio passado.

Minha primeira história, que me veio no início do ano passado, começa com um autor, também incapaz de lidar com as infinitas idéias e personagens que deixou pelo caminho. Cria uma personagem, Alice, com a qual pretende, estando ele também presente como personagem, vagar por suas terras da imaginação, a juntar e tentar entender seus próprios fragmentos de histórias e referências. Já na questão do protagonista, me encontro novamente com Kantor. Kantor sempre esteve presente no palco, em todas as suas peças, como diretor. E em suas últimas produções, entra também como personagem. Ele, o próprio. E em minha história, o autor-personagem sou eu.

Alguns fatores a se notar: aqui o autor não é velho, e a dificuldade não é posterior à jornada, mas justamente de começá-la. Outro, e isso me parece ser de extrema importância, a idéia do autor e das linhas gerais do enredo veio antes de qualquer personagem. Ou seja, esse autor perdido em sua cabeça, quando surge, não tem, de fato, nada que realmente justifique essa sua angústia. Não haviam os personagens que supostamente o atormentavam, mas existia a tormenta. Me parece representar, talvez, a sina do século XXI. Já nascer com um peso que lhe é confiado pelo século XX, como se esse tivesse criado algo de tamanho valor, que a tarefa daquele no mundo há de ser eternamente a de tentar entendê-lo. Carregar o peso de símbolos e personagens que o impedem tanto de prosseguir, quanto de começar de novo, sem saber que, no fundo, esse peso não é seu, que muitas vezes ele nem existe.

Kantor, muito sabiamente, termina Aqui Não Volto Mais com a morte de seus personagens, e não com a atitude narcisista de jogá-los, em suas contradições incontroláveis, às próximas gerações.

O último dia de palestra me foi o mais interessante. A última peça de Kantor ainda trata da memória. O título, "Hoje é Meu Aniversário". E aqui as coisas ficaram ainda mais macabras. Já havia me identificado com Kantor, mais do que me identificara com muitas das pessoas reais que conheço. Tem algo em mim que valoriza muito as figuras que podem me ensinar coisas, que me fornecem meios, ferramentas e símbolos para concretizar meus raciocínios. Estejam elas vivas ou mortas. Então já entrava, a cada dia, procurando pelos pontos de encontro mais evidentes. Vou tentar ser direto, sem criar nenhum suspense. Não quero soar como se estivesse procurando por isso, mas foi o que encontrei.

"Hoje é Meu Aniversário" lida, como muitas peças de Kantor, com a morte. Mais do qualquer aniversário, as figuras de sua vida vêm ao palco, de certa forma, em marcha fúnebre, num retrato inconstante de sua vida, como que executassem seu funeral. Num dos últimos dia de ensaio, Kantor sentiu-se mal, e foi ao hospital. Antes de sair, falou "Deixem as luzes acesas, eu volto logo". Morreu naquela noite, em 8 de dezembro de 1990. A peça estreiou no mês seguinte, em duas cidades diferentes. Em Toulouse, no dia 10. E em Paris, no dia 21 de janeiro de 1991, dia em que eu nasci.

É talvez leviano dar importância a esse tipo de coisa. É talvez prepotente me colocar como herdeiro filosófico de Kantor. Mas uma vez encontrada a coincidência, que fazer? Acho mais interessante utilizá-la, pelo menos até que se esgote, ou que esgote a mim. Sinceramente, não tenho nada muito mais concreto que isso. Kantor, em verdade, me ajuda a concretizar muito do que, em minha cabeça, eu acreditava ser apenas fumaça. Me fica esse assombroso caminho, que até aqui era vislumbrado apenas pelos duvidosos faróis de meus próprios devaneios esquizofrênicos, e que repentinamente me aparece como que iluminado por postes fantasmagóricos, cuja luz pálida é apenas suficiente pra fazer acreditar em sua existência.

É bem verdade que boa parte de Kantor se baseia na idéia de quebrar com o convencional, com o estabelecido. Mas talvez isso indique apenas que o primeiro passo há de ser a quebra das crises finais enunciadas pelo seu teatro, em Hoje é Meu Aniversário, que em tanto me lembram as crises encontradas por mim, não no fim, mas no próprio começo de minha caminhada.

Afundo-me, a partir daqui, nos pensamentos de Kantor, que desde já começam a se confundir com os meus, que já foram os de Borges, os de Gaiman, os de Picasso, os de Fellini, e sabe-se lá de quantos outros. Agora, espero, começa finalmente a jornada rumo à manifestação concreta. Àquele espaço vivo e dinâmico que é o palco, ambiente ideal à exploração dos espaços internos e imateriais do homem e do universo, que ainda precisam ser mostrados, a nós mesmos, como reais.

17/07/2010

Landmark - Uma Pausa em Pedaços

Evitei até aqui a linguagem pessoal, cotidiana dos blogs. Evitei confissões, balanços, prestações de contas para comigo mesmo. Imaginava que em algum momento isso viria, mas não forcei. Quis ter algo palpável, antes de jogar aos leões os meus cacos. Quis ver o outro lado, antes de escrever o epitáfio de um eu. Não sei se sobra aqui algo de compreensível. Acho que finalmente escrevo algo não necessariamente sobre mim, mas para mim. Talvez em breve consiga escrever algo para o mundo.
Estando finalmente aqui, não vou negar-me esperança alguma. Espero estar queimando algumas pontes atrás de mim.


A verdade é que tenho me dedicado e me perdido já há muito tempo em filosofias e significados, em entendimentos do mundo que não me apareciam em nenhuma das disciplinas que me eram oferecidas no grande menu da academia. Em tudo havia distrações e complicações que julgava serem desnecessárias. Correndo o risco de soar um tanto convencido, conseguia extrair das aulas pequenas peças fundamentais, em meio aos mares de conteúdo inútil, de distrações, e de fato montar meu próprio entendimento. Meus colegas me pareciam perder-se por caminhos bizarros, construídos sobre plantas deturpadas pelos traumas do colégio, com as pedras fornecidas pela tal academia, insuportavelmente infladas por seu próprio senso de importância.

Eu sei, parece arrogante. Nada além de usar palavras bonitas para falar das dificuldades alheias. Mas que eu não me engane, essa arrogância já me incomodava na ocasião. Em verdade, sempre me incomodou, e por isso eu sempre deixei muita coisa sem dizer. Desde a escola, quando me elogiavam a inteligência, me vinha uma vergonha absoluta por sentir que não era mérito meu. Que era tudo, em verdade, muito mais fácil do que as pessoas imaginavam. Elas só estavam olhando pelo lado errado. Tinha um caminho muito mais simples, um entendimento muito mais intuitivo sobre todas as coisas do mundo, que não estava nos livros nem nas aulas, mas na observação do próprio conhecimento.

Mas como dizer que esse entendimento, essa simplificação, depende da aplicação de todas as matérias, de todas as lógicas e de todos os significados uns sobre os outros? Que a maior barreira que eu vejo no entendimento do mundo pelos homens se dá na fragmentação de seu próprio saber. Na recusa de entender que todos os nossos sistemas de compreensão são apenas isso, sistemas lógicos. Mesmo as tais ciências humanas são nada além de jogos racionais sobre símbolos encontrados e consolidados pelo homem. Como dizer que deveriamos estar olhando para as formas do próprio saber, e não para o seu conteúdo? É como dizer "Isso aqui é muito simples, basta que você saiba todo o resto, que esse pedaço praticamente se deduz sozinho". Como não soar completamente maluco?

Para aquele garoto de - quantos anos? Quando foi que isso começou? - enfim, para aquele garoto isso era impossível. Faltavam-lhe as palavras. Faltava talvez um pouco de coragem. A força de vontade para superar o receio de soar arrogante. Sempre um ano mais novo que todos a minha volta, quem era eu pra dizer-lhes como pensar?

;

Quando, saído da física, quis dar meus primeiros passos rumo a uma tal arte, contei a meu pai sobre algumas das coisas que me passavam pela cabeça, a respeito do mundo, dos homens, e das relações entre as pessoas. Pouco tempo de conversa, sem conseguir convencê-lo de fato de nada, ele diz: "É, acho que não existe meio de realmente dizer o que você quer dizer, que não através da arte". Não dá pra dizer que não foi um pouco decepcionante. Falava do mundo com tamanha convicção, tinha tanta certeza de que minhas idéias eram claras como a água, que esperava que ao menos meu pai pudesse ver ali todo o tamanho que eu queria enxergar. Descobriria logo que essa seria só uma primeira experiência de frustração, frente às dificuldades de se fazer entender ao mundo e aos outros. Por outro lado foi também um aval, distante e categórico, como havia de ser vindo de meu pai, mas ainda assim um aval. Um sinal verde, um indício de que estaria enfim nalgum caminho.

;

Ano passado mergulhei de cabeça no que tinha, em pensamento, como arte. Escrevi meu primeiro poema, que viria a ser um guia interessante durante muito tempo, talvez até hoje. Desenvolveram-se em minha cabeça e em alguns rascunhos, de uma forma curiosamente expontânea, as formas gerais de uma história em quadrinhos, que, acreditava, seria meu primeiro feito artístico. Os personagens e as tramas, entretanto, a medida que se desenvolviam, pareciam-me importantes demais. Revelavam-me, sem palavras, uma aura de sentido que eu não sabia explicar.

Mergulhei-me, paralelamente ao mundo dessa história, num mundo de filosofia, de observação, que extraía do meu tímido e distante convívio com meus amigos. Aquela mensagem para a qual me faltavam palavras, nos tempos de escola, agora me tomava como veículo de sua exploração, e eu procurava no mundo e nas pessoas os sinais que me levariam ao meu grande desfecho. À revelação de minhas teorias, de minha arte, de minhas palavras finais. As teorias, e os personagens da história me iam aparecendo. Fragmentos, diálogos, alguns desenhos soltos.

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Saindo de uma peça fantástica, minha cabeça voava alto, como se tivesse encontrado altitudes inéditas, em céus que já acreditava mapeados. Disse pra uma amiga, na ocasião, "Acho que vou ter que fazer teatro". E antes mesmo de terminar a frase já me sentia um pouco ridículo. Eu nunca fiz teatro, e em verdade eu nem tenho o costume de ir ao teatro. Mas fazia já algum tempo que eu mergulhava em mim mesmo, numa busca tortuosa por uma coisa que eu chamava de arte, e de concreto, palpável, nada. E aquelas pessoas estavam lá, cantando daquela realidade lisérgica e surreal, uma arte que existia fora de qualquer cabeça. Uma arte que existia, e apenas podia existir assim, no contato, na performance, em sua própria exteriorização.

Como tantas idéias, juntou-se ao turbilhão artístico-emocional, e só. "Acho que vou ter que fazer teatro".

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Conforme aumentava a complexidade de meus devaneios, mais difícil se tornava a convivência com as pessoas a minha volta. Ao fim do ano, encontrava-me num estado deplorável. Nada parecia encaixar-se, e havia me distanciado tanto do mundo, que me sentia, às vezes, eternamente perdido. Como que tornado complicado demais.

Descobri, em algum momento, a verdade maior de toda a minha produção. Esse desenho foi um sinal interessante. Havia me perdido na busca de metafóras e de sentidos, mas o mergulho havia sido pra dentro. Não havia o mundo a ser entendido, mas o mundo sendo usado para entender-me. Todos os meus desenhos, todas as minhas teorias, todas as minhas histórias e personagens, formavam um mapa fragmentado de minha mente, e nada mais.

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Por um tempo achei que eu mesmo havia enfiado-me nesse mundo, e criado minhas próprias prisões, cavado meu próprio buraco. Hoje a interpretação é outra. O isolamento, a distância, a angústia na relação com as pessoas, já me eram presentes há muito tempo. Arrisco dizer desde a quinta série, quando mudei de escola, junto de vários amigos da infância, e os vi mudar drásticamente, frente ao mundo das máscaras do convívio social. Assim como o incômodo sem palavras relacionado ao entendimento do mundo, essa perda do mundo da infância, já naquela época, me causava um incômodo, uma angústia, que eu nunca soube expressar.

Nessa época criei meu primeiro personagem, para um jogo de RPG, chamava-se Nightwind.Um ser de sombras, que usava uma máscara negra. Não se viam seus olhos. Até então não me lembro de ter sido uma criança particularmente interessada pelos personagens sombrios. E esse personagem, já em sua criação, me parecia assustadoramente importante. Como que simbolizasse algo muito maior do que qualquer palavra que eu pudesse proferir. A máscara negra, imagino, já anunciava minha inevitável máscara social, que, pautada pela própria resistência de sua consolidação, seria forjada em volta da indiferença, da distância, do não envolvimento.

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As barreiras eram reais. Meu processo artístico voltava-se pra dentro, afim de quebrar, em mim, as barreiras que eu tanto condenava no mundo a minha volta.

Dado o diagnóstico, que fazer? Precisava urgentemente reatar-me com o mundo.

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Em duas ocasiões senti muito fortemente o presente. Ambas em festas muito parecidas, na nostálgica Campo Grande, a casa abandonada de um amigo meu, palco de muitas de minhas reflexões. A música sendo criada ali, na hora, me trazia um êxtase inexplicável. Não se tratava apenas de música ao vivo, mas músicos que nem se conheciam direito, tocando pela primeira vez e criando um universo inconstante de tensão e repouso, de movimento, de ritmo, de respostas e pulsações inéditas.

Os significados disso tudo eram tantos, que a primeira dessas festas foi quase que totalmente apagada de minha memória. Esse fato pode soar como algo banal para muitos, mas não é algo que costuma me acontecer. Mesmo regada a álcool e drogas, minha mente ávida recusa-se a se deixar levar, a tudo observando e registrando, eternamente teorizando. Nesse dia, a música me mostrou o presente.

Na outra festa, também a música tomou-me, mas dessa vez a consciência, com um empurrão do LSD, em vez de perder-se no esquecimento, desdobrou-se sobre si mesma, e explodiu em um êxtase físico-filosófico que até hoje ainda rende muitos frutos. Não cabe aqui elaborar os pensamentos da ocasião, mas vale colocar dois pontos que marcaram as conclusões gerais da noite.

Sentado num canto da sala de música, timidamente bati num tambor, durante uma das músicas. A música em si, que já me causava admiração, revelou uma face que eu ainda desconhecia. Pela primeira vez na vida entendia o significado real do ritmo, da pulsação, da música como linguagem e conexão entre as pessoas. Passei boa parte da noite batucando. Talvez isso tenha me ajudado a manter as lembranças. Da outra vez, a música havia me mostrado o presente. Dessa, o tambor me lembrava, a cada batida, de estar de fato no presente.

O símbolo maior talvez seja o fato de ambas terem sido festas a fantasia. As fantasias alheias me mostravam, pela primeira vez, as palavras que me faltavam à análise das relações humanas. As máscaras, as personagens, as linhas de força da narrativa. Mais do que isso, penso que minha própria fantasia, o pirata em ambos os casos, talvez tenha sido a fonte maior de meus prazeres. Pela primeira vez em muito tempo eu tinha um personagem, que não aquele tímido e distante pensador no qual eu havia me deixado transformar.

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Mas de conclusões não se vencem barreiras. Da fantasia, não se tira uma nova personalidade. Acreditei que teria sido suficiente a mera conclusão de tudo que pensara, e me deixei, novamente, vasculhar a tal da arte, curioso de saber o que ela viria a dizer, agora que eu havia descoberto o presente, e meu próprio eu nele inserido. Em pouco tempo meus pensamentos me engoliram. Descobri que a relação com aqueles velhos amigos continuava difícil, os significados, e minha própria máscara, ainda pesavam demais. Acreditava que tinha novas coisas a dizer, mas logo percebi que ainda me faltava o contexto.

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Como que num loop sarcástico da minha própria mente, meu distanciamento me fez voltar novamente minhas esperanças ao mundo acadêmico. Uma nova faculdade. Ah, a área de humanas. Talvez agora, munido de todo um ano de desenvolvimento artístico e pessoal eu encontrasse o contexto para me deixar atuar na realidade, e não mais em minha cabeça. Mas esse filme eu já havia visto, e me deparei de novo com aquela realidade que no ano anterior havia descartado em dois meses. Não sei porque demorei tanto dessa vez para abandonar . Acho que o medo de não ter de fato construído nada para colocar no lugar, de cair de novo no mar de meus próprios símbolos, de meus próprios dramas.

Mas não, não era esse convívio humano que eu queria. Não queria lidar com aquele contexto de intrigas não declaradas, de olhares disfarçados para o outro lado. De máscaras e de falsos cumprimentos.

A certeza de que o maior problema do mundo está na relação entre as pessoas me havia levado à História. Mas acho que própria distância histórica, acadêmica, intelectual, que seja, impede qualquer disciplina formal de lidar com isso que me incomoda.

Meu maior erro talvez tenha sido condenar as pessoas a minha volta por se deixarem viver nessa confusão desconfortável de significados humanos. Essa é a vida, e as pessoas, diferente de mim, estavam simplesmente aceitando vivê-la. O que me fica claro agora, é que as pessoas vivem as barreiras e as máscaras, pois acreditam naquilo que fazem, acreditam no conteúdo que buscam. Seja a História, seja a Física, a faculdade é o fator concreto que lhes dá lastro, e que me tem feito tanta falta.

O que também fica claro, é que o que quer que eu tome como meu norte precisa, antes de tudo, recusar-se a aceitar as barreiras, ou ao menos propor-se a estudá-las e forçá-las. Assim como minha arte me fez mergulhar em mim, para iluminar os pontos escuros de meu mapa, não estarei confortável em um contexto que não queira lidar com seus próprios demônios.

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Li Boal. Tenho lido Brecth. Mas agora encontrei Kantor, e entendi finalmente que eu não sou maluco, nem estou fazendo nada inédito. Entendi também que não tenho explorado um mundo imaginário, mas um mundo tão real quanto o nosso. O que me falta é o espaço para torná-lo material. Durante as noites tenho voltado a sonhar. E nesse exato momento sinto o gosto da cerveja em minha boca como há muito não sentia.

"Acho que vou ter que fazer teatro"

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A tirinha é do Laerte, e a mim mistura
Pink Floyd e Boal de forma maravilhosa.
O Blog dele ta aqui.
Altamente recomendável.

06/07/2010

Queria explodir pro presente

Tem um medo constante em algum lugar de mim. Alguma coisa que me amarra, me impede e que no último momento me segura. Sempre.

Um medo de terminar tudo aquilo que eu começo. Uma enchente que sufoca tudo o que eu consigo, com muito esforço, valorizar.

Como que me perguntasse sempre, sempre: "Quem é você pra querer ser feliz?"

Que num segundo derradeiro, muda o foco completamente. De dois palmos na frente do nariz, ao alcance das mãos, prum ponto invisível atrás da minha nuca, a umas dez léguas de distância.

O último passo, sempre ele. O mais banal, o mais óbvio. O que devia aliviar toda a pressão, e se explodir em cor e vento e talvez até em algumas lágrimas.

Mas não vem. Nem as lágrimas eu deixo vir.

É como se eu considerasse redundantes as experiências que eu quase tive; que eu não me deixei viver. E jogasse fora um possível futuro, como se já fosse passado. Examinado, criticado, catalogado e devidamente superado.

Difícil viver querendo sempre estar lá. Difícil cantar um presente possível, sabendo que sou eu que o afasto de mim.

Um bom amigo me disse que pessoas como nós têm dificuldade de lidar com o tempo. Dificuldade de construir. E mesmo quando constróem, não se deixam colher os frutos.

Eu sei que o diagnóstico não é de agora. Sei ainda que tenho visto o fim dessa espiral se aproximar, como nunca antes.

Mas é inevitável pensar se dessa vez eu vou finalmente me permitir desaguar no agora.

Tenho medo, pela primeira vez tenho medo, não de dar o último passo, mas de novamente me privar dele.

08/06/2010

aFinal

Ergo a palavra novamente
Me sai da boca um som que já não conheço
Se contorce no olhar que não espelha mais de mim
E aos olhos já parece todo diferente,
Como tudo novo de novo


Não posso tirar do tempo a tortura do ócio
Nem posso dizer que foi tudo em vão
Não passam os anos nem somam-se as horas
Nem volta por força da mente
A infância sumida num raio de azul

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Das vidas vivi a dos tolos
Auto coroados reis de um grande nada
Mas o fiz com meus próprios dias
nadando cada braçada

Busquei o fim secreto de todas as coisas
O atalho comum a todo caminho
Quis ver, além da próxima curva,
a última dúvida dissipar-se em risada final
de felicidade enfim alcançada

Perdido há tempos em rede de mim
matei aos poucos o muito que sou
Quis mostrar tudo aqui
Quis mudar tudo agora
E virei contra o vento
Esqueci-me da aurora

Constato enfim que não há
nem nunca houve,
nada além daquilo que é
e que tal felicidade
não existe senão nos lagos do agora,
onde nadam as coisas todas da vida

28/04/2010

I think we could live forever

What is life
in these eternal dreams of ours?

Not more than a moment
eclipsed by giants of time

Two blocks of dark
Two sides of ever
Infinite, as far as we can see

Small and weak
we stand the middle
To live this hole
To search for freedom

How fast a glimpse
How thin the line
and yet,
How divine

How pointless to look for meaning
to keep the score
to ask who's winning

If only we could dream
and I don't say that just to sound clever
If we could keep on dreaming
I think we would live for ever

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To quote the Floyd
We reach for the the secret too soon
We cry for the moon
And why not?

Those who suffice
with what was given by life
are only left to rot

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This I write for a friend
Who has seen and heard it all
and I'm sure can easily tell
from where I came and where I end

Who is me
in a way that I will never be

Keep in touch
and farewell

24/04/2010

Festa

Me assustam as festas. As salas escuras, a música alta e os momentos impessoais de prazer completo.

Me assusta que ninguém queira saber de nada no dia seguinte. Que a vida e a noite sejam duas coisas distintas. Duas personalidades, duas realidades. Dois mundos eternos.

Que as pessoas continuem dançando músicas gravadas há 30 anos atrás. Que entreguem seu presente mais sensível, mais real, pro passado completo.

Aliás, me assusta que as pessoas ainda dispostas a criar estejam tocando do lado de fora da festa. Que a música aqui, a música agora, tenha se tornado mais um passatempo pra maioria das pessoas.

Que olhem pro garoto com um violão como um breve sonhador. Tudo já foi feito.

Me assusta que as pessoas mais honestas possam acabar silenciando, não por incapacidade, mas por pura falta de quórum.

Que tudo possa acontecer, mas não aconteça.

Que nos falte o impulso, que nos fuja o contexto.

Que nosso tempo passe como se não houvesse nada que pudesse ter sido feito.

Me incomodam os artistas, que seguem carreira como se arte fosse...

Como se arte não fosse o agora.

Me incomoda quem vive a rotina impessoal da metrópole, e não pensa em gritar e lutar nesse exato momento.

Como se isso fosse de fato mudar alguma coisa.

E continuar muda algo?

Me assusta fazer parte de uma geração que se interessa por tudo, e não vai atrás de nada.

Me incomoda vivermos sextas-feiras de amnésia, pra esquecermos da inércia da semana.

Me cansou a convivência com as máscaras cotidianas.

O que realmente importa pra você?

Outro dia uma amiga me disse que eu acho tudo muito importante.

Mas é, não é?


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Engraçado.

Acho que ainda,
tudo muito perto
tudo muito aberto

As coisas parecem ter começado a andar,
é talvez hora de deixar a massa descansar.