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28/09/2011

Nós

Tanto se fez
por tão pouco,
uns contra os outros,
que lá
de dentro da terra
já ouvia-se o pranto
do homem
Só

;

Agimos como se enlouquecessemos
enquanto a cidade dissipava-nos todos
em massa
cinza
e
inércia

;

Mas um fio de sangue,
em mim, que seja,
ainda corre
e isso
já
muda
tudo

28/02/2011

Fraco

Se sentimos a ânsia de seguir em frente
Mas já não sabemos
pra que lado caminha a corrente

Se ao redor todos são firmes,
e sós, nos sentimos fracos


Se nos é cobrado que tomemos posição
Mas não se faz clara
nem a pergunta em questão

vazios de pés e de mãos,
tímidos retratos da indefinição


Se sozinhos nos perdemos
a cobrarmos de nós mesmos
mais uma falsa solução

dispersos num tom fosco,
com o qual eles mesmos nos pintaram
a tentar justificar a pequenês de seus intentos


,

Que se lembre então a eles
desse caos ao qual nos trouxe
O mundo aqui perpetuado

Do amor que se acabou-se
Do indivíduo endividado

;

Somos uma raça de gigantes enganados
Verdadeiros semi-deuses pós-modernos
Feitos fracos por espelhos deturpados
e incontáveis ilusões de semi-ótica

Ainda se entre poucos,
de nós mesmos discordarmos,

que o façamos à exaustão

até que do cansaço inabalável
possa sair alguma luz,
alguma fresta de luz comum,
de trás das portas
que entre nós
se quedam
fechadas


.

17/11/2010

Let the Artists Die

A arte foi banalizada enquanto técnica, mas as expectativas sociais que a circundam ainda colocam-na num altar, e procuram as obras primas e os grandes mestres.

Encontramos, sem encanto, grandes mentes podres, sucessos egocêntricos, indústria cultural.

Revelamos numa busca incessante, a grande idiotice que é querer achar num homem o modelo dos demais.

O homem é só homem enquanto tal. Sua arte é sua imagem, seu mundo e sua visão.

Porque há de ser mais importante que a tua ou a minha? Porque é ele digno de figurar entre as grandes obras de um museu?

Que seja o fim da arte emblemática de um tempo. Que morra a busca da obra prima.

Que sejam todos os poemas escritos por todas as pessoas, e que se bastem, sem que tenham de ser a consolidação de um tempo maior.

Mais importante que achar o grande artista, apto a captar e traduzir as angústias e as glórias de nossa época, é achar o artista pessoal dentro de cada indivíduo, que se torne dono das ferramentas estéticas que lhe permitam expressar sua própria incoerência interna.

Apropriemos-nos do direito de encontrarmos em nós, nossa própria subjetividade. Separar a arte da existência humana e conceder sua primazia à "classe artística", é terceirizar a exploração de nossa própria humanidade.

É cultuar as palavras do grande poeta no lugar das nossas próprias. Mas seu poema nunca será de fato o nosso, por mais que queiramos acreditar.

Crer nisso é deixar-se apagar, e transformar-se internamente num reflexo reprimido de um "humano" exterior socialmente consolidado e aceito.

É aceitar o diagnóstico alheio e geral, sem encarar nossas estruturas e símbolos específicos.

É maquiar as dificuldades e entraves da diversidade no caminho de uma vida coletiva.

É criar um falso senso de unidade humana, através da supressão sistemática das subjetividades individuais.

Talvez só esse trabalho interno, a coletivização de todas as subjetividades envolvidas num conjunto social, é que possa nos fazer andar rumo a uma realidade humana de entendimento e cooperação.

09/11/2010

São Paulo e o Tempo

Querem que eu diga que são meu país
Mas não tem graça o que essa gente diz
Querem que odeie sem qualquer razão
Povo que há muito só queria o pão

Crêem na lenda de um papel sem dono
Mas que das poucas mãos nunca saiu
Papel que engana quem nele se esbalda
E paga o pobre no final do mês

Notas que compram pais de mil famílias
Não erguem prédios onde moram três
Não fossem braços pretos, fortes, sábios
Não fosse a calma de quem nunca viu

A vida mansa que se leva em cima
Que só de birra põe-se a anunciar
Dizer que vêm de um povo nobreróico
Fazer soar as guerras de além-mar

De trás de seus castelos gradeados
Entrincheirados sob os próprios pés
Despidos de seus típicos trajados
Desmascarados seus reais papéis

E vão na contra-mão de um mundo novo
Bem diferente de onde pensam estar
Correndo o risco de em tempo concreto
Se verem cegos, fracos, sós e nus

---

Os dois primeiros versos me vieram acho que muito em relação ao inacreditável movimento São Paulo para Paulistas. O resto do poema veio depois que eu vi essa foto.

15/10/2010

Us and Them

Us, and them
And after all we're only ordinary men


Os que querem voltar ao dia de ontem, tentando ainda enxergá-lo nos destroços de hoje, e os que sonham o amanhã perfeito, ignorando as duras rédeas do presente.

Os primeiros pedem a nós que haja calma, coerência, disciplina. Em seus momentos mais sensíveis, escondem-se em torres de marfim, e reclamam que o direito de falar seja exclusivo dos que estejam já no topo.

Os segundos, talvez até mais irritantes, tentam sumir com os primeiros através da negação. Ignoram os obstáculos reais, se perdendo em planos de um futuro inalcansável, sem preencher jamais a lacuna que se cria. As "forças conservadoras" se tornam, pela cegueira voluntária, fantasmas muito menos concretos do que realmente são.

;

A utilizar uma frase de um presidente em fim de mandato: "Sou um realista político e jamais endossarei rupturas". Traz a clareza que talvez falte a ambos os lados.

Uns querem romper com a marcha inevitável que é a cultura humana. Outros querem saltar três passos por vez, como se soubessem já todos os caminhos, e através de suas conclusões precipitadas tivessem resolvido o mundo todo.

Haven't you heard?
it's a battle of words


É hora de construirmos algumas pontes. O caminho da ruptura não pôde fazer mais que tornar a ruptura o novo padrão. O encadeamento de infindáveis negações do passado, aos quais responde-se com a negação do presente.

Assim o tempo faz quebrar famílias, partidos e sociedades. A ruptura e a negação só podem levar ao extremismo.

;

É hora de não mais negarmos nada que nos trouxe até aqui, não mais buscarmos a revolução iminente. Não mais gritarmos palavras inflamadas de mudança, achando que assim derrubam-se as paredes que nos separam.

Up and down.

But in the end it's only round and round.


É hora de parar de condenar os que não se movem como fosse isso opção consciente, e não produto de um contexto.

Out of the way, it's a busy day
I've got things on my mind.


É hora de aceitar que eles, como nós, também são parte e fruto desse mesmo mundo, desse mesmo tempo. Ignorar seus anseios, suas dúvidas, sua imobilidade, é recusar uma parte de nós mesmos, é fechar os olhos a demônios nossos com os quais não sabemos lidar.

With, without.
And who'll deny it's what the fighting's all about?


;

Na sociedade, como na vida, é preciso entender que não se supera obstáculos através de sua mera negação, nem através de revoluções instantâneas.

Não se vence as barreiras sem buscar seu sentido e sua origem.

Também não se conquista os indiferentes sem lhes oferecer algo mais palpável que a ruptura.

Não, não é mais tempo de romper, é tempo de mostrar ser possível construir.

24/04/2010

Shall we?

Acho que descobri o que me incomoda nesses gigantescos movimentos sociais. Não que me passem como desnecessários, quixotescos. Mas tudo que há é passível de análise, ao menos para que se busque formas cada vez mais eficientes para aquilo que já consolidamos até aqui. E me incomoda justamente a ineficiência generalizada das mobilizações. Milhões numa passeata, e nada realmente vai pra frente. Reinvidicações assinadas por um sem número de pessoas reais, em encontros reais, vivendo e vendo movimentos concretos, são meio lidas e sumariamente ignoradas numa só canetada. É como se a luta fosse ainda pelo reconhecimento, e não pelas mudanças. Ainda parece necessário lidar com essa máquina social que ignora as manifestações populares, para que só depois se busque o que elas de fato reinvidicam.

Ponha-se assim, lutamos por mudanças, por um modelo alternativo, por um outro mundo. Juntamos nossas idéias e batemos a porta daquele mundo velho, apontando sonhos e desenhos distantes de um futuro que poderia ser. Pedimos, pois, ao velho fazendeiro, que se proponha a dividir suas terras com essa gente sofrida, que viva em pé de igualdade com aqueles que sempre viu de cima. Pedimos à bancarrota do júri popular, que se desprenda do certo, e apoie uma causa que lhes é distante e irreal. Temos idéias mil, e infinitas mãos, pés e cabeças que vivem, muitas vezes não por escolha, à mercê dessa luta pela própria relevância, pelo reconhecimento de sua própria vida e anseios.

E o caso é que não dá. Acho que chega de ficar esperando o aval de um mundo velho, pra que pensemos juntos um mundo novo. No minimo porque o velho nao conhece outra forma de viver, e o novo que por ventura se dispuser a criar estará sempre pautado pelas linhas mestras daquele passado entendivel. Mas o que eles entendem nao é a fome do povo, não é o frio, o medo, a luta. São modelos teóricos, números, sociedades passadas analisadas. Personagens já mortos, dos quais de fato a dor e a vida já não importam, transportados pro presente, pra que se possa entender, sob uma confortável distância histórica artificial, os personagens e acontecimentos do mundo hoje.

O caso é que hoje não existem personagens, existem pessoas. Somos reais, e disso ninguém entende. Cada um entende por si seu próprio valor. Não devemos mais buscar o reconhecimento alheio. O outro é sempre objeto de análise, não sabemos de fato da sua dor. Se queremos um mundo novo, construamos, e cheguemos às portas do antigo inferno com uma máquina pulsante de puro ineditismo histórico. Não esperemos que nos dêem as mãos, ou que peguem ao nosso lado no cimento e nos tijolos. Esperaríamos, com toda sinceridade, e morreríamos de fome no eterno adiamento, nos planejamentos sem fim dos que nunca pretenderam colocar nada em prática. Dos que continuaram, a vida toda, tentando achar uma saída confortável, buscando nada além de meios para não abandonar.

Festa

Me assustam as festas. As salas escuras, a música alta e os momentos impessoais de prazer completo.

Me assusta que ninguém queira saber de nada no dia seguinte. Que a vida e a noite sejam duas coisas distintas. Duas personalidades, duas realidades. Dois mundos eternos.

Que as pessoas continuem dançando músicas gravadas há 30 anos atrás. Que entreguem seu presente mais sensível, mais real, pro passado completo.

Aliás, me assusta que as pessoas ainda dispostas a criar estejam tocando do lado de fora da festa. Que a música aqui, a música agora, tenha se tornado mais um passatempo pra maioria das pessoas.

Que olhem pro garoto com um violão como um breve sonhador. Tudo já foi feito.

Me assusta que as pessoas mais honestas possam acabar silenciando, não por incapacidade, mas por pura falta de quórum.

Que tudo possa acontecer, mas não aconteça.

Que nos falte o impulso, que nos fuja o contexto.

Que nosso tempo passe como se não houvesse nada que pudesse ter sido feito.

Me incomodam os artistas, que seguem carreira como se arte fosse...

Como se arte não fosse o agora.

Me incomoda quem vive a rotina impessoal da metrópole, e não pensa em gritar e lutar nesse exato momento.

Como se isso fosse de fato mudar alguma coisa.

E continuar muda algo?

Me assusta fazer parte de uma geração que se interessa por tudo, e não vai atrás de nada.

Me incomoda vivermos sextas-feiras de amnésia, pra esquecermos da inércia da semana.

Me cansou a convivência com as máscaras cotidianas.

O que realmente importa pra você?

Outro dia uma amiga me disse que eu acho tudo muito importante.

Mas é, não é?


---

Engraçado.

Acho que ainda,
tudo muito perto
tudo muito aberto

As coisas parecem ter começado a andar,
é talvez hora de deixar a massa descansar.

08/04/2010

Espera menos desse mundo

O mundo podia bem ser mais poético

Parar de achar que sabe
o que é ruim
o que é de mim
e o que não cabe

;

O mundo tinha, talvez, é que ser mais profético

Perder num sonho sem espanto
dar ouvido a quem insiste
em gritar que sim existe
outra vida noutro canto

;

O mundo, eu acho, podia se deixar ser mais patético

Pensar enfim botar de lado
esse pouco de si
passar por sol, fá e mi
sem assim tanto cuidado

.
.
.

Quanto tempo tens sobrando?
Horas, dias, verdes anos
Passam hoje, estás contando?

Espera menos desse mundo
Tudo a dar sim já lhe deu
Junta as peças que já são
Pega o deles, monta o teu

Busca nova melodia
Sonha o sonho doutro dia
Faz você a poesia
Afinal,
não era isso que queria?

01/04/2010

Why so proud?

Why so proud?
Why so bold?
All I know
All I've been told

I did learn from your mistakes
Want to build on your dried lakes
Tell me what it is that makes
Ears deaf to my attempts

Ain't the world
yours and mine?
Ain't it here
for us to define?
What it was
says what it is
What will be
.
.
.
Well, that's up to you and me

Donde foste, caro amigo?

Que te passa caro amigo,
que não vejo mais teu brilho?
Donde foste em meio tempo?
Que é que viste de tão ruim?

Esse mundo tão parado
inda é o mesmo de outrora
Se mudou, mudaste ti
essa imagem que lhe deu
Perversa lógica invertida
d'alguém que um dia já fui eu

Liberta amarras da tua mente
Larga o firme pé no chão
Diz que não, não está contente
com essa vida, com esse pão

Lembra ainda como era?
Lembra o fácil que já foi?
Sei também, ninguém espera
fácil assim ser pra voltar

Pega a flauta da criança
Brinca atrás de um novo dia
Talvez ache novamente
quão foi simples dedilhar
Nota a nota sem querer
Buscando sem nunca achar

Inda nasce a melodia
O mesmo sol toda manhã
Já nem lembra o que queria
Queira mesmo é procurar

;

O dia, caro amigo,
busca o dia, que se sabe,
há no final de cada noite

Noite fria, noite boa
Noite é noite, e sempre acaba
Vive a noite ponta a ponta
Vira história,
senta e conta

What is you can that I can't too?

There are endless dreams to dream
And they all've been dreamed before
Packed, sealed and sold akin
To countless dreamers wanting more

And all this world will show
Is all there is to know
There's nothing out of tone
Nothing more than you alone
Dream your dreams in hours of sleep
Do your job, a floor to sweep

.
.
.

But there's a place between the lines
Ideas waiting for the mind


Aren't you walking out of way?
I hope you don't have much to say

From a distance all the same
Who can dream all and stay sane?


I'd stay put, it's not that bad
What it is that makes you sad?

I see people going nowhere
I see men who live to sleep
I see money walk in circles
Binding each and every feet


If I were you I'd see no choice
Lower the head, lower the voice

Can this be just what it seems?
Another joke in my mad dreams?
Will I change the world I see?
Or is it still from me to me?

You're not sure of what you say
Will you just shut up and stay?

Have I heard the sound of music?
Have I read the lines of text?
Have this all been but illusion?
One more image of the past?


Something may seem just not right
But then again, where would you strike?

One should do what one can do
What is you can that I can't too?

31/03/2010

Dum dia que há de vir

Vê esse monstro na frente dos teus olhos?
Hei de cortar-lhe a cabeça.
Mas não deixarei que leves o meu nome,
ou que cantes em minha glória

A batalha há de ser lutada no escuro,
de forma que nem se note
a violência de seus golpes
Para também que não se leve troféus,
que se esqueça das histórias
e que se possa, finalmente,
viver por um tal presente

;

Eis a dor do poeta que luta
Dum contador de histórias, a eterna sina
Saber ser preciso,
necessário,
imprescindível,
que se queime sua obra maior,
e mais real

Sabe porém ser justamente,
nesse fim indiferente,
que se faz valer como tal

;

É bem verdade que meus golpes
podem não ser suficientes
Mas se engana o poeta que pensa:
"Mato-te, ou morrerei tentando"
Pois aquele que tenta não morre jamais

Cada golpe teu será lembrado
Não por todos;
Bem verdade, talvez por quase ninguém;
Mas de certo pelo próprio monstro
no momento final de sua queda,
a ele, tão inesperada;
a nós, desde já,
assustadoramente tardia,
eternamente adiada.

Desespera-te, grita e chora; que faz bem

Olhai bem capitani
Di-me o que vês
;

Senta ao sol, no limite da proa
Procura a tão sonhada maré boa
Mira sem rumo o horizonte
eternamente longe
qualquer seja o presente

O que procuras muito bem se esconde;

Longe muito longe, aperta os olhos contra o espelho
Contra mim, e também contra si mesmo
Enxerga além da linha, além da beira
além da vida, além do mundo

Encontra que o futuro tão sonhado não existe
Desespera-te, grita e chora;
que faz bem

Mas no momento de tão amarga derrota
não se sabe se concreta ou filosófica
lembrai de não abandonar o navio

As velas rasgadas pelo dia
A vida deixada por um fio
A idéia livremente abandonada
Mas também livre pra ser livre,
aleatória, e inétida em sua aleatoriedade

Qualquer o rumo traz consigo
os equívocos todos de quem o traça
E o sol que faz crer na paz inata
consome homens inda vivos,
qual urubu sobre carcaça

É no abandono inconsolado
de um navio não abandonado
que nascem os lúcidos poetas

;

A deriva traz consigo o ás na manga
dos que buscam um futuro impossível
tornado inalcansável pela própria idéia estática

Quando desprende a direção dos passos
do confortável conformismo convencido
de um mundo já todo se-entendido
O impossivinalcansável
se torna, talvez, meramente improvável

14/03/2010

Ensaio de um Reflexão Exagerada

E o sistema de ensino? Cenário de ficção científica. Pretende-se padronizar as mentes que passam pelas escolas. Os filhos da elite têm suas cabeças diariamente bombardeadas por conteúdo do mais diverso, fora de contexto e potencialmente inútil. “Hoje não se vive sem saber um pouco de tudo. São outros tempos.” É o discurso de uma “self-important” classe social que repudia todo tipo de trabalho físico. Já as escolas públicas são mantidas num nível mínimo. “Se tomam gosto por pensar, quem é que vai trabalhar nesse país?”, disse o ministro da educação, numa de suas esporádicas visitas ao seu gabinete.

“It's our own brave new world”, diz o poeta, mas as palavras se perdem na cacofonia de uma esquina movimentada. Somos sim, numerados, registrados e controlados por toda nossa vida. Ou pelo menos é o que se espera de nós; nada mais. E a que preço?

Do lado de cá, um batalhão de adolescentes desconfortáveis dentro de uma sala de aula, que nunca chegam a saber o que realmente se espera deles. (Quão absurdo é querer padronizar o processo de aprendizado de um mecanismo tão complexo quanto o cérebro humano? Resultado de um mundo regido por burocratas: é a era do gerenciamento de pessoas. Gerenciamento de pessoas, há!, melhor fechar os parenteses). Desde cedo diagnosticamos crianças com “déficit de atenção”. Os pais se preocupam, “Imagine se ele tem que virar lixeiro”. Aulas de reforço, horas de estudo, psicológos, remédios (?!?!), e não se acha o suposto problema. “O garoto não quer saber de estudar”, “Tudo bem querida, a gente paga o diploma e eu coloco ele pra fazer algo na empresa”.

Do lado de lá, dessa tênue linha imaginária que a nós parece uma muralha, milhões de mentes humanas artificialmente isoladas dum tal “mundo intelectual”. Quantos pensadores brilhantes em potencial passam a vida trabalhando como semi-escravos no imenso interior desse país? Ou morrem de fome numa favela do outro lado da cidade?

E se o drama lá é concreto, palpável, aqui é psicológico. Ousaria dizer “real” e “imaginário”? Acho que não chego a tanto. Parece que tomamos verdadeiro nojo do mundo a nossa volta, até nossos momentos mais desesperadores decorrem de nossas reflexões, “all in our heads”. O que acontece quando nos deparamos com desafios físicos reais e inevitáveis? Quando somos forçados pra fora da apatia, sem possibilidade de mergulharmos de volta no ópio intelectual de nosso tempo? Can we take it? Can I?

31/01/2010

Funny Fact

Até aqui me parece que nada foi definitivo. É tudo um grande ensaio. Me sinto como que apenas levado pelos acontecimentos. Onde estão as decisões fundamentais de nossas vidas? Terão todas sido reduzidas a itens nesse imenso menu? Qual curso, qual matéria, qual especialização? Poucas são as ocasiões em que essas escolhas não podem esperar por mais alguns meses, ou serem deixadas para o ano seguinte; ou o próximo. Criamos essa bolha dentro da qual podemos escolher a vida que vamos levar, olhando para o futuro como um amontoado de caminhos que podem ser trilhados, fazemos planos, escolhemos carreiras: Você pode ser o que quiser! E de fato, podemos. A bolha sustenta a si mesma, escolha uma carreira, faça uma faculdade, e terá no mínimo um emprego medíocre que você mesmo escolheu.

A palavra da nossa era é a estabilidade. Provável fruto de algum racionalismo extremamente arrogante, a doutrina é ter uma vida estável. A vida da classe média hoje se resume muito a isso. Você tem um bom emprego, um carro e um apartamento, pra que complicar as coisas? Qualquer dúvida a respeito da própria felicidade é automaticamente espremida naqueles 10 minutos de reflexão que precedem o sono todas as noites. Melhor assim, que de manhã já nem se lembra mais disso.

Escolhemos eliminar de nossas vidas todas as dúvidas e incertezas. Vivemos mecanicamente como peças dessa máquina, que controla desde nossa alimentação até nosso entretenimento. Estabilidade. E com qual resultado? Pessoas com um falso sentimento de felicidade, cujos raros momentos de auto-análise revelam o vazio desesperador do consumismo.

Um psicólogo talvez diga tudo o que você não quer pensar por si mesmo. Que sua vida é vazia, você não gosta do que faz, mas você tem muito medo de quebrar seu último dogma: a estabilidade. Criado em um mundo totalmente controlado, você nunca aprendeu a lidar nem com o desconhecido, nem com suas próprias vontades. E apesar da vontade de enfrentar o desconhecido, você opta pelo controle. Controle total do seu pequeno mundo, certo de que qualquer problema deve estar só na sua cabeça; afinal as outras pessoas parecem perfeitamente felizes.

Criamos a bolha, instituímos nosso admirável mundo novo, mas a que preço? Para que possamos viver nossas vidas estáveis, vazias e deprimentes, milhões de seres humanos são obrigados a enfrentar todo dia a constante luta pela sobrevivência, na miséria total. O medo, o desespero, a dúvida. Sentimentos que conhecemos através da ficção e das artes, como se não pertencessem a nós.
Funny fact: Pessoas morrem de fome, para que você possa viver uma vida vazia.