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18/11/2011

Belo Monte e a Nossa Hipocrisia Histórica

Lá desde as aulas de História da tia Andrea que ensinam pra gente como os portugueses mataram todos os coitados dos indíos. De muito pequenos já nos ensinam a chorar aqueles genocídios sem porquê, cometidos por um povo que não tinha ainda a consciência do valor de todas as culturas, do respeito à vida e das valiosas diferenças contidas em todo modo de vida que o ser humano desenvolve.

Nos ensinam também que hoje atingimos essa tal consciência, e que por isso se preservam os índios que restaram em reservas fechadas com cara de museu, e num Dia do Índio que é mais pras nossas crianças que pras deles.

Depois a gente aprende que o buraco era mais em baixo. Não era só questão de consciência, mas vinha de toda uma realidade econômica e política da Europa, onde uns Impérios decadentes buscavam formas de se reinventar. Pra tentar salvar suas economias podres, sustentadas por pilares condenados, desesperadamente avançaram sobre terra que houvesse, jogando sobre um Novo Mundo as lógicas daquele velho, matando aqui todo potencial de renovação que eles mesmos acreditavam buscar.

Matou-se, destrui-se, verteu-se a terra virgem em solo morto europeu. Os Impérios que aqui chegaram primeiro não se salvaram, caíram logo, mas abriram o espaço para que os próximos continuassem seu trabalho. Fomos passando de mão em mão como moeda de troca, cada vez mais europeus, ao ponto de sermos hoje feitos à imagem e semelhança da sociedade burguesa internacional, guardando de nossos primeiros anfitriões apenas a rede de dormir e o banho-nosso-de-cada-dia.

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Cabral não é mais conquistador, e suas caravelas são equipes de engenheiros. O contato com os nativos, se necessário, será feito pela polícia. Nosso Rei, agora eleito democraticamente, é lá posto para a tarefa impossível de manter nos trilhos da estabilidade mais um Império em decadência. Um Império muito mais sutil e difícil de enxergar, que se expressa não em terras mas em formas de viver e modos de produzir.

Dizem que Belo Monte é necessária. E o é, num Brasil preocupado em trilhar o caminho do desenvolvimentismo desenfreado, do predatorismo e da competição internacional. Preocupado em manter-se membro, e firmar-se na hierarquia do grande Império do Capital Globalizado.

Belo Monte é necessária, da mesma forma que a Colônia brasileira era necessária à Metrópole portuguesa: como esperança de sustentação de algo que se tornou insustentável: nosso próprio modo de produção.

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"Ah, mas hoje," nos dizem, "caminhamos com a luz da democracia rumo a uma sociedade cada vez mais igualitária e justa. Hoje, respeitamos os direitos de todas as culturas, de todos os povos, de todos os indivíduos. Hoje atingimos aquela consciência humanitária que faltava aos Impérios de outrora. Nossa democracia garante que toda decisão seja em prol de nosso desenvolvimento integral, como povo e nação."

Patéticas palavras de quem não vê além das verdades oficiais. Verdades oficiais que sempre foram usadas em prol do "tudo corre bem". Verdades oficiais que, quanto mais se aproxima o Império do desespero, mais distantes ficam da realidade.

Patéticas palavras de quem chorou na aula de História pelo indío morto no passado, e não enxerga o índio que morre hoje para a contrução da usina. Que não vê que o que morre não é um ser humano, mas uma forma de existir no mundo, e de relacionar-se com a Terra. Estamos agora mesmo escolhendo o desenvolvimento predatório exigido pela competição capitalista que, numa solene e mórbida metáfora histórica, novamente exige a retirada do índio - mera pedra no caminho.

Como dantes, o Império Burguês também não se salvará. Porque simplesmente não se salvam os Impérios, expressos mais em sua força motriz e produtora, do que em estruturas institucionais e bandeiras que se tentam preservar artificialmente.

Não se pode querer salvar um Império, que guerreia contra si mesmo, só para colocar em movimento suas finanças.

Que destrói sua própria Terra em nome de sua suposta riqueza.

Que que silencia seu próprio povo em nome de sua sobrevivência.

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15/10/2010

Us and Them

Us, and them
And after all we're only ordinary men


Os que querem voltar ao dia de ontem, tentando ainda enxergá-lo nos destroços de hoje, e os que sonham o amanhã perfeito, ignorando as duras rédeas do presente.

Os primeiros pedem a nós que haja calma, coerência, disciplina. Em seus momentos mais sensíveis, escondem-se em torres de marfim, e reclamam que o direito de falar seja exclusivo dos que estejam já no topo.

Os segundos, talvez até mais irritantes, tentam sumir com os primeiros através da negação. Ignoram os obstáculos reais, se perdendo em planos de um futuro inalcansável, sem preencher jamais a lacuna que se cria. As "forças conservadoras" se tornam, pela cegueira voluntária, fantasmas muito menos concretos do que realmente são.

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A utilizar uma frase de um presidente em fim de mandato: "Sou um realista político e jamais endossarei rupturas". Traz a clareza que talvez falte a ambos os lados.

Uns querem romper com a marcha inevitável que é a cultura humana. Outros querem saltar três passos por vez, como se soubessem já todos os caminhos, e através de suas conclusões precipitadas tivessem resolvido o mundo todo.

Haven't you heard?
it's a battle of words


É hora de construirmos algumas pontes. O caminho da ruptura não pôde fazer mais que tornar a ruptura o novo padrão. O encadeamento de infindáveis negações do passado, aos quais responde-se com a negação do presente.

Assim o tempo faz quebrar famílias, partidos e sociedades. A ruptura e a negação só podem levar ao extremismo.

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É hora de não mais negarmos nada que nos trouxe até aqui, não mais buscarmos a revolução iminente. Não mais gritarmos palavras inflamadas de mudança, achando que assim derrubam-se as paredes que nos separam.

Up and down.

But in the end it's only round and round.


É hora de parar de condenar os que não se movem como fosse isso opção consciente, e não produto de um contexto.

Out of the way, it's a busy day
I've got things on my mind.


É hora de aceitar que eles, como nós, também são parte e fruto desse mesmo mundo, desse mesmo tempo. Ignorar seus anseios, suas dúvidas, sua imobilidade, é recusar uma parte de nós mesmos, é fechar os olhos a demônios nossos com os quais não sabemos lidar.

With, without.
And who'll deny it's what the fighting's all about?


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Na sociedade, como na vida, é preciso entender que não se supera obstáculos através de sua mera negação, nem através de revoluções instantâneas.

Não se vence as barreiras sem buscar seu sentido e sua origem.

Também não se conquista os indiferentes sem lhes oferecer algo mais palpável que a ruptura.

Não, não é mais tempo de romper, é tempo de mostrar ser possível construir.

24/04/2010

Shall we?

Acho que descobri o que me incomoda nesses gigantescos movimentos sociais. Não que me passem como desnecessários, quixotescos. Mas tudo que há é passível de análise, ao menos para que se busque formas cada vez mais eficientes para aquilo que já consolidamos até aqui. E me incomoda justamente a ineficiência generalizada das mobilizações. Milhões numa passeata, e nada realmente vai pra frente. Reinvidicações assinadas por um sem número de pessoas reais, em encontros reais, vivendo e vendo movimentos concretos, são meio lidas e sumariamente ignoradas numa só canetada. É como se a luta fosse ainda pelo reconhecimento, e não pelas mudanças. Ainda parece necessário lidar com essa máquina social que ignora as manifestações populares, para que só depois se busque o que elas de fato reinvidicam.

Ponha-se assim, lutamos por mudanças, por um modelo alternativo, por um outro mundo. Juntamos nossas idéias e batemos a porta daquele mundo velho, apontando sonhos e desenhos distantes de um futuro que poderia ser. Pedimos, pois, ao velho fazendeiro, que se proponha a dividir suas terras com essa gente sofrida, que viva em pé de igualdade com aqueles que sempre viu de cima. Pedimos à bancarrota do júri popular, que se desprenda do certo, e apoie uma causa que lhes é distante e irreal. Temos idéias mil, e infinitas mãos, pés e cabeças que vivem, muitas vezes não por escolha, à mercê dessa luta pela própria relevância, pelo reconhecimento de sua própria vida e anseios.

E o caso é que não dá. Acho que chega de ficar esperando o aval de um mundo velho, pra que pensemos juntos um mundo novo. No minimo porque o velho nao conhece outra forma de viver, e o novo que por ventura se dispuser a criar estará sempre pautado pelas linhas mestras daquele passado entendivel. Mas o que eles entendem nao é a fome do povo, não é o frio, o medo, a luta. São modelos teóricos, números, sociedades passadas analisadas. Personagens já mortos, dos quais de fato a dor e a vida já não importam, transportados pro presente, pra que se possa entender, sob uma confortável distância histórica artificial, os personagens e acontecimentos do mundo hoje.

O caso é que hoje não existem personagens, existem pessoas. Somos reais, e disso ninguém entende. Cada um entende por si seu próprio valor. Não devemos mais buscar o reconhecimento alheio. O outro é sempre objeto de análise, não sabemos de fato da sua dor. Se queremos um mundo novo, construamos, e cheguemos às portas do antigo inferno com uma máquina pulsante de puro ineditismo histórico. Não esperemos que nos dêem as mãos, ou que peguem ao nosso lado no cimento e nos tijolos. Esperaríamos, com toda sinceridade, e morreríamos de fome no eterno adiamento, nos planejamentos sem fim dos que nunca pretenderam colocar nada em prática. Dos que continuaram, a vida toda, tentando achar uma saída confortável, buscando nada além de meios para não abandonar.

25/03/2010

Sobre o autoritarismo do ilustre governador

Em reflexão em cima desse artigo do Viomundo.

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Esse autoritarismo crescente do governo de São Paulo, junto com a postura cada vez mais agressiva e manipuladora da mídia, me preocupam. O mais grave é que independente de qualquer repercussão popular, tanto o governador, quanto a grande mídia continuam a ignorar as denúncias que lhes são apresentadas. Agem como se tudo estivesse em ordem, e propagam justamente essa imagem nos meios de comunicação tradicionais.

Mas e quando começar a corrida eleitoral, e Serra tiver que ir ao ar em cadeia nacional se confrontar com os dados que até aqui ignorou? O mais grave é que a carta da mentira, que deveria estar nas mãos do PT, já foi lançada pela oposição, contra a candidata do governo. Assim, Serra tem a vantagem no jogo da "minha palavra contra a dela", pelo menos no que diz respeito às versões dos grandes jornais. Se essa for mesmo a tática do PSDB, insistir num cenário fantasia da exemplar administração paulista, e no suposto caráter mentiroso da candidata adversária, teremos um excelente meio de medir a autonomia de pensamento do brasileiro. Será que ainda somos reféns da política publicitária da mídia?

Me remete ao clássico pleito norte-americano, Nixon x Kennedy, que para muitos marca o início da campanha eleitoral midiatizada. Só que aqui o cenário se inverte em vários sentidos. O queridinho da mídia é o candidato com cara de zumbi, que dificilmente chegará ao nível de idealização alcançado pela imagem construída em cima de Kennedy. Do lado oposto à indústria publicitário-midiática, em vez da figura decandente, séria e envelhecida de um político conservador, a ministra Dilma, com um sorriso digno de seu antecessor, e com propostas que olham pra frente.

E se na imagem os papéis se invertem, no contexto geral não é diferente. O caso americano marcou a espetacular consolidação do poder político dos grandes impérios midiáticos, no cerne da então maior nação do planeta. Já a eleição brasileira vem acompanhada de toda uma simbologia que fecha esse mesmo ciclo: a mídia lutando com todas as forças para eleger seu candidato, que não mais representa o progresso e a democracia, mas a estagnação, a falta de debate e o autoritarismo ideológico dos quais ela própria tornou-se símbolo maior. E isso no país que vem ganhando cada vez mais destaque internacional como promissora potência econômica, e indiscutível mediador global, pregador do debate pacífico e conciliatório.

É como se tudo indicasse o fim de uma era. Mas esses são os símbolos para os quais eu estou dando destaque, e que formam a minha interpretação do momento. Que será que pensa o governador? Vive ele próprio no seu mundo fantasia? Ou teria ele uma percepção de fato mais aguçada que a minha, que o colocaria em posição de vantagem nessa loucura presente?

Voltando à minha interpretação, não creio, dadas as circustâncias, que o governador possa se ver numa posição vantajosa, independente do ângulo que se olhe o tabuleiro. Isso, é claro, se estivermos os dois refletindo em cima das mesmas regras: uma corrida eleitoral dentro de um sistema democrático. E é aí que preocupam, tanto o caráter autoritário do governador, quanto os olhos direcionais da grande mídia.

23/03/2010

Sobre a Guerra da Mídia

Do Viomundo,em Como o Jornal Nacional mente sobre o PNDH III,

Após a reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) em que foi apresentado o III PNDH, acompanhada por jornalistas, inclusive da Rede Globo, na terça-feira (16/3), o ministro da SEDH conversou com alguns repórteres. Reafirmou que havia disposição do governo de rever três pontos do III PNDH: defesa ao direito ao aborto, condenação do uso de símbolos religiosos em prédios públicos e criação de novos mecanismos de mediação de conflitos agrários.

Na mesma noite, o Jornal Nacional da Rede Globo, deu a chamada: "O governo admite alterar pontos mais polêmicos do Programa Nacional de Direitos Humanos".
Os três pontos que poderiam ser alterados se transformaram em quatro, incluída a referência a uma “proposta de impor um limite à autonomia das empresas de comunicação” que, além de não ser especificada, também não foi mencionada na fala do ministro da SEDH.

Curiosamente, no dia seguinte, 17 de março, a matéria sobre o assunto publicada no jornal O Globo sob o título “Estamos dispostos a fazer correções”, cita os três pontos relacionados pelo ministro e não faz qualquer referência ao “quarto” ponto mencionado no JN.


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Me chama atenção o fato do Jornal Nacional seguir uma abordagem diferente àquela publicada n'O Globo. Apesar de estarem na mesma linha, o primeiro se mostra cada vez mais radical em sua manipulação, enquanto o jornal impresso segue tentando o papel de oposição moderada e consciente. Já vimos a revista Veja trilhar esse mesmo caminho, e tornar-se veículo das idéias mais reacionárias, utilizando-se das táticas mais baixas do nosso pseudojornalismo de direita. Estaria o Jornal Nacional indo também nessa direção?

Ora, se a mídia de fato já se assume como partidarizada, é cabível analisar suas estratégias de campanha. A Veja tornou-se claramente a encubadora da grande mídia. Descompromissada com qualquer verdade factual ou procedimento ético-jornalístico a revista dá as cartas que serão usadas por todos para requentar o debate oposicionista. Assim, com uma base que joga abertamente o jogo da mentira, os outros meios podem, tranquilos, repercutir os absurdos, elaborar em cima destes e atacar a tudo e a todos que de alguma forma representem o governo, sem com isso passarem por mentirosos, já que a informação foi inicialmente publicada na Veja.

A revista já enfrenta processos por diversos casos de publicações manipuladas ou puramente inventadas. Enquanto espera pela, quero acreditar inevitável, condenação, se dá a liberdade de continuar e até intensificar suas práticas marcadas pelo mais puro fanatismo classista. A estratégia não é nova, e por isso mesmo até seus criadores já conhecem suas falhas. A Veja não tem alcance fora da elite reacionária do sul e sudeste; ou seja, prega apenas pros já convertidos. Apesar da repercussão dos ditos "grandes jornais", os factóides não chegam aos ouvidos do eleitor de Lula, e assim a oposição, desiludida, perdeu em 2006, sem entender como, apesar dos tais escândalos, o PT não caiu.

Sem projeto de governo, há quem diga que a direita pretende reutilizar-se da tática da manipulação midiática para barrar a eleição de Dilma. Em parte eu concordo, mas creio que nem a nossa direita raivosa é estúpida o suficiente pra não enxergar o mesmo rombo nesse plano congelado. Também não são criativos o suficiente para bolar algo novo, já tão em cima da hora. É possível, porém, que troquem de posição algumas de suas peças, e tentem adaptar a estratégia para atacar por um novo ângulo.

Senão vejamos, se o problema é o alcance das mentiras (e não a falta de projeto, como pensariam os mais sensatos), a grande mídia tem apenas uma ferramenta viável: a Rede Globo. De amplo alcance nas classes cativas do presidente, é a maneira de levar a campanha diretamente pra dentro da casa do eleitor. A globo sempre foi alinhada com essa mesma direita sem projeto, mas alguns fatores a impediram de tornar-se uma Veja Multimídia.

Primeiro, como já foi citado, o fato da própria Veja permitir que se disfarce a manipulação, desvinculando sua autoria, teoricamente criminosa, de sua propagação. O Jornal Nacional, portanto, já era utilizado como ponto de redistribuição do material eleitoral mascarado, de forma comedida, pontual, quase formal. Segundo, o fato da Globo representar o maior monopólio midiático do país, e como tal ser a grande cabeça por trás da guerra, ainda fria, que se trava no setor. Não era do interesse da Rede Globo, em 2006, partir pro combate aberto. Acreditava-se que podiam ganhar a eleição com guerras menores, sem envolver e comprometer a credibilidade de peças importantes, como por exemplo o Jornal Nacional. Não deu certo.

Apesar dos repetidos ataques, o governo escolheu por uma abordagem pacífica do problema, aguentando tudo que tivesse de aguentar, acreditando ter uma base sólida de apoio popular. Quanto mais a mídia tentava destruir a imagem do presidente, mais sólida ela parecia se tornar. A cada resposta irônica que saía da boca do "analfabeto-sem-dedo", caíam dúzias de factóides e acusações mirabolantes, das quais o presidente acabava rindo por último. E a cada risada, a oposição mordia mais um pedaço da língua, e entendia, aos poucos, que seria preciso muito mais.

Nos últimos dois anos as movimentações no sentido do debate acerca dos meios de comunicação no país vem alcançando certo respaldo nacional. Começa-se a questionar a legitimidade dessa mídia que nos mostra o Brasil que quer. O povo começa a querer falar sobre o assunto. E apoiado, como sempre se apoiou, nesse apoio popular, aquele mesmo governo que agüentou 8 anos sob fogo aberto, parece finalmente ter decidido responder. Acho que o marco maior foi o processo contra a Veja, agora nesse último "escândalo".

Pois bem, a oposição e a mídia se vêem, então, diante do seguinte cenário: um governo forte, com ampla base de apoio, e altas possibilidades de ganhar o pleito eleitoral; uma estratégia provadamente furada à la ultra direita norte americana; a iminente aproximação de uma guerra aberta que tentou evitar por anos a fio, na questão do monopólio da informação. Não há espaço pra manobras, a eleição está perdida. E é aí que mora o perigo. Se Dilma é eleita, o PT passa a trsanscender Lula, se consolida e legitimza de uma vez por todas, frente aos que desacreditam que haja um projeto por trás da imagem do barbado sorridente.

Essa última carta branca, o apoio final do povo brasileiro, é talvez o que falte ao governo para travar a tão prorrogada guerra da mídia. É uma guerra desleal e perigosa pra qualquer governante, e por isso deve ser lutada em condições favoráveis. Aos que se perguntavam o porquê da aceitação passiva do PT frente a ataques caluniosos da grande mídia, fica aqui uma possiblidade de resposta: nessa briga desigual, o partido não fez nada além de esperar pelo momento mais certo para começar a responder.

Sendo assim, a mídia começa a criar o cenário da luta que virá. Primeiro, levantam o debate acerca da liberdade de expressão, sem que esse tenha sido sequer citado no tal Programa. Depois, enfatizam o caráter autoritário da candidata do governo, tirado sabe-se lá da onde. Nesse mundo pós-moderno, quão fácil é fazer a ponte entre terrorista e ditadora? Curioso é que nesse caso a "terrorista" lutava justamente contra um regime autoritário, o que nos levaria a criar uma imagem diametralmente oposta à optada pelos jornais. Mero detalhe.

Depois, e esse é um fenômeno já em seu desenrolar, os meios de comunicação começam a mudar o tom, aumentam os ataques, as mentiras, os furos de última hora, os esquemas milionários de corrupção. Esse passo pressupõe, de certa forma, uma conspiração orquestrada pelos setores midiáticos da indústria. Aos que crêem na paranóia de tal versão, procurem pelo instituto Millenium, um congresso organizado pelos grandes da área de comunicação para "debater os rumos do setor no brasil". Detalhe: o ingresso custava 500 reais, o que faz crer que os tais barões, se debateram, o fizeram apenas entre si; em outras palavras, conspiraram.

Se a Veja e os jornais não têm respaldo no eleitor de Lula, é preciso colocar em jogo a última arma: o Jornal Nacional, ainda a principal fonte de notícias da maioria dos brasileiros no final do dia. Descendo diariamente o nível das acusações, aproximando-se cada vez mais da prática da manipulação e da mentira já bem experimentadas pela Veja. Quanto tempo até a primeira reação por parte do governo ou do PT? Um processo na justiça, um pedido de resposta, uma declaração oficial. E aí todas as peças estarão em jogo. A "tendência" do PT contra a liberdade de imprensa, a "ditadora" Dilma, a mídia "defensora da sociedade civil", contra os fantasmas do autoritarismo, que ameaçam esse tão precioso símbolo da "democracia" brasileira, o tradicional Jornal Nacional.

Resta saber se tal batalha vai se dar antes da eleição, como último sinal de desespero, talvez até com direito a uma tentativa de golpe, ou depois, como cruzada principal dos quatro anos de governo que enfrentará a ministra.

A copa e as eleições

Do Viomundo,

“não é impossível imaginar que a Dilma ganhe a eleição já no primeiro turno”

Há uns anos, numa conversa com meu pai, chegamos ao curioso fato das eleições presidenciais no Brasil caírem sempre nos anos de Copa do Mundo. Sendo esse o país do futebol, coincidência ou não, tal fato devia ser pensado mais a fundo por alguém, acho que dá margem pra análise. É fato que tem mais brasileiros ligados no futebol que na política. Por falta de tempo ou vontade vou me limitar a uma idéia apenas: penso que se o Brasil ganhar a copa esse ano não tem segundo turno. Esperar pra ver.

19/03/2010

Sobre um momento presente

O Azenha colocou em seu blog, o excelente Viomundo:

Bom dia. É engano meu ou a candidatura do governador José Serra foi sequestrada pela extrema-direita brasileira? Quando ela arreganha os dentes e passa a fazer campanha baseada em factóides, assassinatos de reputação, manipulações, boatos, rumores e mentiras, deixa o campo aberto no centro político. Ponto para o presidente Lula, como a voz da moderação e da negociação. Um dado não suficientemente notado, na recente pesquisa IBOPE/CNI, é de que 53% dos entrevistados disseram que pretendem votar no candidato do presidente. Daí, presumo, o desespero. Que faz a extrema-direita ainda mais nervosa e raivosa, atirando a esmo, afastando-se ainda mais da moderação, solapando até mesmo as bases que seriam naturalmente de um candidato de oposição e alimentando o “salvacionismo”. Um caso típico de suicídio eleitoral? A ver.

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Ao que eu respondo:

Pode parecer loucura da oposição, mas numa análise geral acredito ser nada mais que o caminho natural desse embate. Se Lula entra pra história como uma revolução em diversas frentes, a principal delas há de ser a mediação, a moderação, o diálogo aberto. E se deixa a presidência esse ano, nada mais emblemático, e talvez inevitável, que tornar claro o que ele representa, e ainda mais importante, ao que ele se opõe, a qual modelo oferece alternativa; o que exatamente a revolução Lula veio sepultar.
Lá fora, o Brasil ganha espaço como o amigo de todos, que não se recusa a aceitar o desafio de superar as barreiras de entendimento pelas vias da conversação. Com isso desperta a ira dos EUA, a fera decadente de um mundo de intrigas e teorias da conspiração, que se recusa a cair sem se debater, e trilha a inevitável descendente rumo ao seu isolamento final. Não há de ser mera coincidência, pois, que aqui dentro o fenômeno Lula desperte ira semelhante numa classe social ideologicamente alinhada com certos dogmas norte-americanos, também cada vez mais isolada e enraivecida.
O recente protagonismo internacional brasileiro pode vir justamente daí: lutamos, num mesmo momento, e contra um mesmo inimigo, dentro e fora de nossas fronteiras; estamos, por assim dizer, no ritmo dos acontecimentos históricos de nosso tempo. Essa possível emancipação brasileira será objeto de estudo por muitos anos, e sua análise não pode se achar completa num momento tão presente, ainda tão líquido. Mas creio que já se faça evidente a possiblidade de um mundo fundado na comunicação e no diálogo, do qual a imagem do Brasil consolida-se a cada dia como símbolo maior.
Ora, não é essa mesma luta que estamos travando hoje mesmo, ao optarmos pela internet, pela coletivização da comunicação e do desenvolvimento de idéias, pela criação e pelo compartilhamento num ambiente democrático, em detrimento às velhas formas de recebimento passivo da informação?